Por: Katia Muniz cronicaskatia@live.com
No meu convívio há pessoas com habilidades diversas. Uma pinta quadros, outra confecciona roupas em crochê, há uma doceira de mão cheia, outra faz trabalho artesanal em chinelos, e gente que trouxe o 3º lugar para o Brasil no último pan-americano, realizado no mês de outubro, no Paraguai, na modalidade de tiro esportivo.
E eu faço o quê?
Costuro. Nunca fiz um vestido, uma calça, uma saia. No máximo, prego botões e faço bainhas. Mas costuro palavras. Vou alinhavando uma aqui, outra ali, na esperança de formar um texto.
A inspiração às vezes me visita, mas não gosta de permanecer. Costuma ser breve, com aparições casuais. Nem dá tempo de convidá-la para um café. Tem pressa. Deve ser ocupada demais. Há mais pessoas que costuram palavras, e convém não demorar com cada uma delas, assim, quem sabe, poderá servir a todas.
Quando resolve aparecer, costuma soprar nos meus ouvidos, alguma frase, parte de um outro texto, um acontecimento, uma notícia. E eu rapidamente anoto em qualquer lugar, pois não é sempre que o computador está na minha frente. Mas a minha produção, geralmente, se dá no período noturno, nas altas horas, em que a casa se encontra em silêncio. É quando a cidade dorme que eu me concentro.
Às vezes começo e não sei como vou terminar. Noutras, sei exatamente o começo, meio e fim. Costuro com as dificuldades próprias de quem é autodidata, e me apego na disciplina, no empenho, na dedicação e na curiosidade, esta última, talvez a mais importante fonte do conhecimento.
No esboço, vou escolhendo a forma, o estilo, o modelo, formando os traçados ponto por ponto.
Costuro. De preferência com folga, nunca na medida. É preciso flexibilizar. Nada muito justo, ou apertado. Ventilação é fundamental para que as ideias apareçam e inspirem, nessa solitária e difícil tarefa de costurar palavras.
