Por: Katia Muniz
Idade boa é aquela que tem sempre alguém resolvendo as coisas para nós. Escolhem nossas roupas, nos carregam no colo, dão comida na boca, nos dão banho. Crescemos um pouquinho, conseguimos caminhar com nossas próprias pernas, mas continuam a nos dar a mão para atravessar a rua, a marcar consulta no dentista, a nos levar ao médico e a nos dar remédio. Ainda não nos apresentaram a palavra responsabilidade.
Idade boa é aquela em que não basta apenas existir, é preciso aparecer. E para nos destacarmos no meio da multidão, a gente pinta o cabelo de vermelho, descolamos uns tênis coloridos, perfuramos o corpo e penduramos uns metais, marcamos a pele para sempre com dragões e caveiras, escutamos música no mais alto volume. E não estamos nem aí para o que dizem da gente. A onda é correr riscos e descobrir novos caminhos. E só não vamos mais longe, porque não temos um mísero centavo no bolso.
Idade boa é aquela em que a gente consegue o tão sonhado emprego. Finalmente, vamos ter a grana que tanto queríamos. Independência à vista! Mas logo na entrevista, nos dizem que o cabelo não pode ser vermelho, que os piercings não são bem-vindos e que as caveiras e os dragões devem ficar bem escondidos. É nessa idade que a gente aprende que, para conseguir algo, temos que, em troca, abrir mão de uma série de outras coisas.
Idade boa é aquela em que encontramos a nossa cara-metade, e nosso coração aprende a ficar em disparada. É quando resolvemos juntar as escovas de dentes, termos companhia constante, sentir a delícia que é passar as noites de inverno aconchegados embaixo do mesmo edredom.
Idade boa é aquela em que os filhos já cresceram, que os netos aparecem de vez em quando, e a gente dá a atenção devida, mas sem nenhum tipo de responsabilidade sobre aquelas criaturinhas tão fofas. Já temos estabilidade financeira, não damos importância nenhuma para o que pensam de nós e, maravilha das maravilhas, ainda temos um bom tempo pela frente para aproveitar a vida.
Bom mesmo é ter o privilégio de passar pelo maior número de idades possível, sem apressar os passos, sem dar saltos e nem pular etapas.
Bom mesmo é viver cada uma delas, porque o acúmulo dessas idades é que nos dá a tão esperada experiência de vida e nos fornece histórias para contar.
