Crônica do Dia

Barulhos

Por: Katia Muniz

stock-photo-closeup-sad-young-woman-with-worried-stressed-face-expression-and-brain-melting-into-lines-question-334063310Votação de abertura do processo de impeachment na câmara: raros foram os deputados que usaram o seu momento de voto para o real objetivo: sim ou não. Preferiram extrapolar o tempo permitido a cada um, fazer ensaio de oratória para as próximas eleições, gritar, esbravejar, aparecer e não esqueceram de mandar beijo para a família, esta que, por sinal, também deveria ser lembrada no momento em que alguns desses mesmos deputados cometem suas falcatruas.

Lindomar Garçon, deputado do estado de Rondônia, conseguiu a proeza de aparecer mais que o presidente da mesa, Eduardo Cunha. Garantiu espaço privilegiado e passou o tempo todo flertando com a câmera de televisão. Impossível não enxergá-lo. Tínhamos um olho em quem votava e outro nele. Não arredou o pé. Parecia empalhado. Não havia expressão em seu rosto, até que uma placa pró-impeachment invadiu a frente da câmera e roubou míseros segundos de sua aparição. Aí sim, vimos Lindomar histriônico, fazendo barulho como os outros. Era o circo de horrores!

Marcela Temer: com sua beleza e com sua trança lateral, na posse presidencial em 2011, sua imagem era um bálsamo a tudo que estava ao redor e a tudo que estava por vir. Na época, não foi poupada e, recentemente, uma matéria de revista a trouxe de volta ao centro das atenções. Em pouco tempo, viralizaram os memes nas redes sociais e só se falava dela. Barulho demais para uma Marcela discreta.

Prince: sejamos francos, quase ninguém comentava sobre ele até sua morte ser anunciada no último dia 21/04. Eu fui, nostalgicamente, catapultada para a sala de cinema do antigo Santa Helena, onde assisti, nos anos 80, ao filme “Purple Rain”. O que se viu na sequência segue o ritual de praxe: notícias, notas, homenagens, fotos, músicas e clipes ressuscitados. Barulho. Nesse caso, extremamente devido. Prince era um artista e a arte merece destaque. Deve ser propagada, exaltada, explorada, fomentada, comentada, espalhada, consumida.

Consumir arte eleva, e muito, as nossas chances de melhorarmos como pessoa, de aguçar nosso senso crítico, de sermos formadores de opiniões. De quebra, a arte ainda é responsável por nos levar à fantasia, pois nada é mais prejudicial à saúde do que o excesso de realidade.

Arte é informação, é crescimento, é avanço, é cultura. E cultura serve para muita coisa, inclusive para chegarmos em frente à urna com um embasamento próprio e não nos deixarmos servir de marionetes. Com isso, seríamos poupados de inúmeros fatores que hoje, infelizmente, temos que enfrentar, como por exemplo, a de assistirmos envergonhados os deputados eleitos por nós, transformarem um momento histórico e sério em um celeiro de vaidades.

Ajuda também a não nos incomodarmos tanto com a vida do outro. Deixar que as mulheres belas, recatadas e do lar sigam seu curso. A propósito, o que há de errado com essas três características? Eu respondo: nada.

Que a arte nos invada, nos preencha e nos dê discernimento para lidarmos com os barulhos em excesso.

 

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