Crônica da Kátia Muniz

kátia munizNem foi culpa da Estela

Por: Kátia Muniz                                                                   cronicaskatia@live.com

Por precaução, não passei a costumeira máscara nos cílios. Fui avisada com antecedência pelas amigas que há muito sabem do meu histórico de chorona. Não quis correr o risco de borrar a maquiagem e sair feito um urso panda do cinema. O filme em cartaz era o drama “A culpa é das estrelas”.

Sentei mais para o meio da fileira, com uma amiga ao lado. A primeira providência de Estela foi retirar da bolsa uma caixa de Kleenex. Garota prevenida.

Começa o filme. Começam os clichês: um amor que se inicia com um esbarrão, e ela esperando ele ligar no dia seguinte. Alguém já não viu isso antes?

Um pouquinho mais pra frente o código do casal: “Okay”. Em “Ghost” era: “idem”.

Difícil conseguir originalidade em pleno século XXI. Não é uma crítica, e sim uma constatação. Quem consegue ser original com a velocidade de informações que nos chegam em tão pouco tempo? Há sempre vestígios de um texto dentro de outro. Há sempre uma ideia que já foi usada. Há sempre uma fala que já foi mencionada.  Eu falei clichês? Falei. Mas a vida está repleta deles. E as repetições também são necessárias.

Admito: o filme é lindo, sim! E muito triste também.

“A culpa é das estrelas” transborda em reflexões, mas vou me ater a uma delas: os números.

Os números que nos acompanham desde o primeiro momento de vida. Registram a hora do nascimento, o dia, o peso, o tamanho. É aberto o placar. Não sabemos o que nos espera dali para frente, mas eles começam a correr.

Um ano depois, faremos aniversário. Comemoraremos um ano a mais, e ainda, inconscientemente, um ano a menos na escala da vida. Ironicamente, há um avanço e um retrocesso.

Não sabemos se vamos chegar aos 80 ou se interromperemos a trajetória, contando com bem menos. Mas quem convive com doença terminal sabe que cada amanhecer representa uma grandiosa esperança.

Na película, Hazel Grace e Augustus vivem os números que lhes foram permitidos. Não há tempo a perder, não há segundos a se desperdiçar. “Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados”, diz ela. Não há como ficar indiferente. Não há como não pensar em como estamos usando nossos dias e nossos números cravados em calendários e relógios.

O filme vai nos vulneralizando com o decorrer das cenas e com as inúmeras frases de efeito. Ouço uma moça, lá no fundo, soluçar. Outros se remexem com frequência nas poltronas, enquanto Estela amassa um lenço de papel atrás do outro. Cada um expressando os golpes que recebe a sua maneira.

Nunca vi tanta gente sair desmontada, emocionalmente, de uma sala de cinema. Encarei Estela, que, a essa altura do campeonato, era o próprio urso panda.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *