Crônica do Dia, com Kátia Muniz

kátia-muniz2Cartilha do amor

Por: Katia Muniz

Ainda lembro da minha cara assustada, na aula de Ciências, quando a professora tentava, da maneira mais didática possível, explicar sobre a sexualidade.

Falava-se sobre os sexos. Mas não nos ensinaram sobre o amor.

Não me recordo de alguém ter dito que o amor é lindo e também é frágil. Recomenda-se manusear com cuidado os corações preenchidos. Instale a etiqueta Handle with care, por precaução.

Não nos entregaram uma cartilha com um sumário detalhado das minúcias que envolvem esse sentimento.

“Abram na página 25. Hoje, vamos aprender como conquistamos o outro.” Se houve essa aula, eu não estava presente e duvido muito que você também estivesse.

Lembro que, na época, as moçoilas eram incentivadas a ler Sabrina, Júlia, romances que nos levavam para qualquer lugar no espaço, mas que se apresentavam anos-luz da realidade.

Mas a gente não demora muito para perceber que o amor se aprende é na prática. Não há outro jeito, outra fórmula, outro método.

Amor é a tentativa de fazer funcionar duas pessoas diferentes em um par afinado. Há de se ensaiar muitas vezes. Nem sempre se acerta de primeira.

Duvido das receitas que anunciam o amor em dez passos. Como uma sequência mágica em que basta seguir à risca para se ter a garantia do resultado.

Tudo bobagem.

Amor é pele, é contato, é cheiro, é desejo, é algo que faz pulsar dentro.

Amor é conversa, é saber ceder, é chamar para o diálogo.

Amor requer ingredientes na medida e fogo brando.

Também desconfio das chamas que queimam de maneira abrasiva. Excessos costumam desestabilizar, sufocar, amarrar, prender, fechar.

Amor é liberdade, nunca prisão.

Amor não tem lógica. Chega sem anúncio. Às vezes, no momento exato; em outros, totalmente, fora de previsão.

E segue a maioria, buscando, na multidão do planeta, alguém que preencha as nossas brechas e o que nos falta.

Quando funciona é uma das coisas mais belas da vida.

Sem receitas, sem cartilhas, sem páginas, sem palavras de ordem.

Encaixou, serviu? Ergam as taças. Brindem o amor. Sirvam-se.

Acho lindo quando a vida e a mesa são postas para dois.

 

 

 

 

 

Crônica do Dia- Que Vergonha!

Boy (9-11) with head buried in sand

Que vergonha!

Por: Katia Muniz

O Brasil é riquíssimo em belezas naturais. Praias paradisíacas, rios, cachoeiras, arquipélagos, chapadas.  Tudo de tirar o fôlego!

Chorão, ex-vocalista da banda Charlie Brown Jr., cantava o verso: “Molduras boas não salvam quadros ruins”.

E o que se anda pintando neste país não há moldura que salve.

Por aqui, pintam o sete, desenham o oito e surrupiam altos dígitos.

Invadem hospital com armamento pesado para resgatar um traficante.

Constroem ciclovia ao preço de quase 45 milhões de reais e, três meses depois de inaugurada, assistimos, estarrecidos, à parte dela ir, literalmente, água abaixo. Pior, com saldo de mortes.

Há estupro coletivo. Há barbáries em cada esquina.

Ah! Por aqui, também levam onças para servir de alegoria durante a passagem da tocha olímpica. E depois? Bem, depois o animal se irrita e se estressa com o circo todo , diz a que veio usando seu instinto selvagem e o abatem.

O que, comumente, se ouve após tantas notícias escabrosas é que vão apurar os fatos e punir os responsáveis. Responsáveis? Ou seriam irresponsáveis?

Se os responsáveis ou irresponsáveis serão punidos, provavelmente, não saberemos. Estaremos ocupados vendo a abertura da Olimpíada, enfrentando filas quilométricas para pagar contas, aguardando senhas para sermos atendidos em hospitais sem estrutura ou driblando o curto dinheiro com a enorme lista do supermercado. Nada que nos tire o humor para também nos envolvermos com os próximos sambas-enredos do Carnaval de 2017, quando derrubaremos o queixo diante de vários pares de seios siliconados e desnudos.

Afinal, se há algo que esse país sabe fazer bem é Carnaval. E o serve o ano inteiro.

Copa, Olimpíada. Será que ninguém vê que nossas prioridades são outras e de caráter emergencial?

Será que não tem ninguém, com um mínimo de bom senso, para enxergar que não é prudente levar duas onças para uma cerimônia, no meio da multidão?

Envergonha-se quem ainda carrega alguma decência.

Juma e a Olimpíada. Para mim, as duas foram abatidas.