Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2A chance desperdiçada

Por: Katia Muniz

O filme “Que horas ela volta?” me rendeu uma crônica no ano passado e, desta vez, volto a ele para comentar sobre o diálogo que antecede uma cena que acabou dividindo opiniões na mídia, mas que eu achei encantadora: a do pedido de casamento. Em um determinado momento, o personagem Carlos diz: “… Às vezes a gente fala umas coisas que podem parecer loucuras, mas se eu não falo, talvez isso seja loucura…”.

Ele ressaltava a importância de falarmos o que realmente sentimos, uma vez que não sabemos se teremos uma segunda chance.

Eu devo ter me remexido na poltrona do cinema umas vinte vezes quando ele proferiu essa frase.

Pensei nas pessoas que carregam amores que nunca foram declarados, expostos, mencionados. E exatamente por nunca terem sido expostos, deixaram de formar os casais, os pares.

Pessoas que arrastam sentimentos por anos porque simplesmente não conseguem falar. Falta-lhes a coragem da exposição, enquanto impera o medo do ridículo, o pavor de errar a fala, o gaguejar em virtude do nervosismo, o constrangimento ao desnudar a alma.

Alma desnuda é alma vulnerável.

Mas desconheço cena mais bela do que alguém dizendo com todas as letras que lhe cabem os mais lindos sentimentos!

Que loucura gostosa botar para fora o que nos sufoca, o que nos acorrenta, o que nos prende ao chão.

Que loucura magnífica conseguir dar vazão às palavras certas, que servirão para acariciar o outro.

Que loucura sublime dizer que sente falta, que gosta, que ama.

Eu me rendo aos loucos atrevidos que dizem tudo com as faces ruborizadas. Esvaziam-se, despem-se, libertam-se.

Loucura é protelar, é esconder, é abafar, é trancafiar, é deixar para um amanhã que não se sabe ao certo se vai existir.

Loucura é enganar-se, é guardar tudo para si, é arrastar o peso dos sentimentos não revelados.

Desperdiçar uma chance é extinguir a intensidade dos momentos.

Isso também é uma forma de óbito.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Flechas do cupido

Por: Katia Muniz

Janeiro é lento. Fevereiro, cheio de ziriguidum. Março me traz idade nova. Abril, Páscoa. Maio é maternal. Julho nos pede uma parada. Agosto, paternal. Setembro, florido. Outubro lembra crianças. Novembro requisita acúmulo de energia. Dezembro é a queima da energia acumulada, caos, comércio, loucura.

Pulei junho, percebeu?

Para mim, é o mês mais lindo do ano porque celebra o amor.

Só por esse fato, merecia destaque no calendário. Os números poderiam vir coloridos, assim como deve ser a esperança.

Não há preto e branco na expectativa de um amor, de um encontro, de uma possibilidade, de uma vontade, de um desejo. Há sempre uma paleta de cores.

Junho é mágico. Figura-se o Cupido que ainda dispara suas flechas na tentativa de juntar os pares, formar casais, unir vidas.

Há uma urgência no ar. É preciso encontrar alguém, mas nem sempre se disponibiliza o tempo e o investimento necessários para fazer a relação durar.

O Cupido se entristece com a velocidade dos relacionamentos, o junta e o separa que acomete as uniões. A fugacidade, a fila que anda na busca do par ideal.

Não há o ideal. Esqueça essa farsa da perfeição.

Amores não são perfeitos e costumam apresentar defeitos com o tempo de uso. Defeitos que, na maioria das vezes, são possíveis de consertar, desde que haja vontade entre os envolvidos.

Em outros casos, faz-se a troca. Começa-se novamente, o ritual já conhecido. Testa-se, experimenta-se, explora-se, saboreia-se, avalia-se, prova-se. Encara-se a possibilidade. Não se desperdiça uma promessa.

Convites para jantar, muitos assuntos, descobertas dos gostos, sorriso bobo no rosto, olhos brilhando feito pedras preciosas.

É do ser humano essa vontade latente de ter alguém para dormir de conchinha, para esquentar os pés em noites frias, para dividir a parte chata e a parte legal da vida, para ter alguém para cutucar, provocar, insinuar vontades e desejos.

Que junho seja uma inspiração, uma pintura, um facilitador, um amolecer de corações que já levaram algumas pancadas.

Que o Cupido tenha mira certeira e que junho extrapole no amor e arraste a beleza dos pares para os demais meses do ano.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Abraço

Por: Kátia Muniz

“No abraço a gente entrega o quanto ama”. Fernanda Estellita.

Não é novidade, pelo menos para quem me acompanha, que costumo, muitas vezes, dar a largada para meus textos usando como base frases que me tocam.

A que abre esta coluna, caiu como uma luva para celebrar, no próximo dia 22 de maio, o Dia do Abraço.

Mesmo no Brasil, em que somos mais efusivos ao cumprimentar, dificilmente vamos abraçar alguém no momento da apresentação.

O outro é uma incógnita, um desconhecido. Então, para evitar constrangimentos, esticamos a mão para um cumprimento formal ou, no máximo, aproximamos a face para um beijinho discreto.

Já os abraços ficam reservados para aqueles com quem temos certo grau de intimidade.

Ainda assim, há diferenças neles. Há os abraços rápidos, com um leve encostar do corpo, fugazes, ligeiros, instantâneos, fugidios, apressados. Eles denunciam que ainda falta a entrega dos envolvidos. Avançaram do aperto de mão e do beijinho no rosto, mas negam o repouso e a aproximação mútua que, no gesto em questão se faz necessário.

Homens costumam se abraçar e se estapear ao mesmo tempo. Quando você vir dois homens depositando, com entusiasmo, vários tapas nas costas um do outro, não há outro veredicto: há afeto envolvido. Pai e filho e amigos de longa data são exemplos clássicos da euforia.

Mas lindos mesmo são os abraços que se encaixam, que juntam dois corpos formando um só, que promovem o aconchego, que transborda a segurança.

Abraço que transmite a sensação de paralisar o tempo, de silenciar vozes, de ser o melhor lugar do mundo.

Abraço que faz subir os batimentos cardíacos, que acalma a alma, que faz cafuné no coração, que troca energias e que dá vontade de permanecer ali.

Abraço de gente que fica feliz de ter nos encontrado, que abre os braços e nos recebe sem pressa, com demora e, mesmo sem mencionar nenhuma palavra nos diz: fica aqui.

Abraço sem economia, sem parcimônia, leves, apertados, explosivos, provocativos.

Abraço que se multiplica na hora da despedida, que é a senha para o “não se vá”.

Beijo é ótimo, mas é no abraço que o amor começa.