Crônica da Kátia Muniz

kátia-munizEcos do texto

 Por: Katia Muniz                                                                       katiacronicas@gmail.com

Não era natal, mas fiz o meu pedido. Deu certo. Fui atendida por duas pessoas que, até então, não sabiam da minha existência. Gente que me ajudou, que aceitou divulgar o meu trabalho. Assim nasceram os comentários das crônicas que acontecem todas as sextas-feiras na Rádio Ilha do Mel FM, nas vozes de Flávio Petruy e Luciane Chiarelli. Quem disse que, mesmo fora de época, Papai Noel e Mamãe Noel não existem?

Os atores, cantores, músicos têm, no momento em que atuam, a possibilidade de captar a reação da plateia. Quem escreve não tem plateia.  Não costuma estar presente na hora em que o leitor compra seu livro. Não o vê folheando as páginas. Perde as expressões faciais que sua escrita provoca em quem as lê.

Vou arriscar dizer que sou privilegiada. Com os comentários das minhas crônicas, feitos no ar, ao vivo, sem edições e sem cortes, posso perceber as emoções que são passadas. Durante todo esse tempo em que os textos vêm ganhando voz, observo os comentaristas nas suas facetas humanas, entregues ao riso, às gargalhadas, às reflexões, às indignações, ao choro, à alegria, à agitação, ao envolvimento.

Os comentários farão aniversário. Completarão dois anos, no próximo dia 28/09. São presentes que recebo toda sexta-feira. Presentes que não estão atrelados a datas comemorativas, que não vêm embrulhados em pacotes e nem com laçarotes, mas que eu sei receber com enorme gratidão.

Os comentários são, às vezes, curtos, rápidos. Em outros momentos, longos, perspicazes. Às vezes, embalados com música de fundo e, em várias ocasiões, trechos da crônica servem de gancho para tratar de outro assunto.

Assim tem sido, através da dobradinha de vozes que se auxiliam, que se socorrem, que se ajudam, que se completam.

Obrigada, Flávio e Luciane, por meus escritos ganharem sentimentos e emoções em suas falas, pois texto que ganha voz costuma provocar eco.

Crônica do Dia

kátia-munizPanos de prato

 Por: Katia Muniz                                                              katiacronicas@gmail.com

Naquele momento, a rua estava com pouco movimento. Uma mulher organizava, calmamente, algumas sacolas com compras no porta-malas do carro, quando foi abordada por um adolescente, também com uma sacola nas mãos:

– Moça, para ajudar minha mãe, eu vendo panos de prato pintados à mão, quer comprar?

Ela olhou estupefata para o garoto. Assustada, começou a dispor as compras de qualquer jeito dentro do carro, como quem quer se livrar logo do serviço.  Respondeu ao jovem que não tinha interesse.

Ele não insistiu, deu meia-volta e foi atrás de outra pessoa.

A violência é tamanha que o simples fato de algum desconhecido nos dirigir a palavra nos assusta.

Naquela sacola, poderia haver panos de prato, como também, poderia haver uma arma. Vai saber.

Na mesma semana, dois acontecimentos de derrubar o queixo:

Primeiro: Um homem de 55 anos é morto a facadas por um jovem de 19 anos, em Matinhos, litoral do Paraná.

Segundo: Um adolescente de 15 anos, com histórico de mau comportamento na escola, revolta-se com a professora e resolve o quê? Golpeá-la com uma faca dentro da sala de aula. Aconteceu em Piraquara, região metropolitana de Curitiba.

Há que ponto chegamos! Andamos assustados, temerosos, em pânico.

O garoto estava mesmo vendendo panos de prato. Foi visto, na sequência, concluindo uma venda para uma outra pessoa. Mas, diante de tantos casos absurdos que nos chegam todos os dias, estamos incrédulos. Desconfiamos de estranhos que nos dirigem a palavra. Paralisamos, ficamos perplexos.

Não nos abordem na rua, em estacionamentos ou qualquer outro lugar. Não apareçam com as mãos nos bolsos, com sacolas perto de nós. Nossa ingenuidade foi-se por terra. O medo nos congela e não nos permite a chance de apreciar trabalhos manuais de uma dona de casa que tenta conseguir alguns trocados, pondo seu filho para vender panos de prato.

Crônica do Dia

kátia-munizBandas covers

 Por: Katia Muniz                                                                  katiacronicas@gmail.com

Nas imediações do teatro, já dava para perceber o alvoroço. Motoristas à caça de uma vaga para estacionar e pessoas, com passos apressados, denunciavam estar atrasadas para o compromisso. Não estavam. Ainda havia tempo, mas a tarefa de driblar a ansiedade não é das mais fáceis.

E qual era o motivo de tanto frenesi?

A apresentação da banda cover “Geminis Tribute to Bee Gees”. Vindos da Argentina para abrir a turnê brasileira em nossa cidade. Que honra! Sí, nuestros hermanos!

Tem muita gente que ainda torce o nariz para as bandas covers.

Preconceito, xô!

Eu, que já vi “Abbey Road Tribute to the Beatles”, “The History – a tribute show to ABBA” e agora o “Geminis”, me excluo totalmente da categoria dos preconceituosos. E pelo que presenciei, no último dia 27/08, também não é o caso das quinhentas pessoas que, empolgadíssimas, lotaram o teatro Municipal Rachel Costa para curtir a homenagem aos irmãos Gibb.

Tenho o maior respeito por esses artistas que se empenham em mostrar algo tão próximo ao original. E essas três bandas resgatam uma época tão marcante e que ainda pulsa forte em nossa memória. Os artistas, geralmente, alcançam timbre de voz parecido com o modelo, caracterizam-se e incorporam os personagens homenageados, o que faz a plateia reviver momentos inesquecíveis. Havendo qualidade no show, não vejo problema algum em se deixar seduzir pelo o que as várias bandas covers têm para nos apresentar.

O tributo aos Bee Gees conseguiu lotar o teatro em plena quarta-feira. Justamente dia do Brasileirão na TV, quando nossos excelentíssimos maridos, noivos e namorados viram-se divididos entre a partida televisiva ou nos acompanhar ao espetáculo. Adivinha quem venceu? Nós, claro.

Estavam lá, casais das mais variadas idades, contemplando músicas atemporais dentro de um espetáculo primoroso, embalados por melodias românticas e dançantes.

E por falar em dançantes, é praticamente uma tortura ouvi-las sem poder dançar. Presos à poltrona, mesmo sem haver cinto de segurança, era possível observar o balançar de cabeças, ombros chacoalhando e pés em movimento. Mostra clara do que a música é capaz de provocar.

Todos se sentiram aliviados quando receberam autorização para levantar e poder, enfim, pôr para fora a energia guardada.

Bandas covers representam nossos artistas prediletos. Que podem ser atuais ou aqueles que fizeram parte de uma época. O fato é que mexem nas recordações, trazem à tona o nosso passado, vasculham lembranças, e fazem a gente sonhar sem precisar fechar os olhos.

Crônica da Kátia Muniz

kátia munizNem foi culpa da Estela

Por: Kátia Muniz                                                                   cronicaskatia@live.com

Por precaução, não passei a costumeira máscara nos cílios. Fui avisada com antecedência pelas amigas que há muito sabem do meu histórico de chorona. Não quis correr o risco de borrar a maquiagem e sair feito um urso panda do cinema. O filme em cartaz era o drama “A culpa é das estrelas”.

Sentei mais para o meio da fileira, com uma amiga ao lado. A primeira providência de Estela foi retirar da bolsa uma caixa de Kleenex. Garota prevenida.

Começa o filme. Começam os clichês: um amor que se inicia com um esbarrão, e ela esperando ele ligar no dia seguinte. Alguém já não viu isso antes?

Um pouquinho mais pra frente o código do casal: “Okay”. Em “Ghost” era: “idem”.

Difícil conseguir originalidade em pleno século XXI. Não é uma crítica, e sim uma constatação. Quem consegue ser original com a velocidade de informações que nos chegam em tão pouco tempo? Há sempre vestígios de um texto dentro de outro. Há sempre uma ideia que já foi usada. Há sempre uma fala que já foi mencionada.  Eu falei clichês? Falei. Mas a vida está repleta deles. E as repetições também são necessárias.

Admito: o filme é lindo, sim! E muito triste também.

“A culpa é das estrelas” transborda em reflexões, mas vou me ater a uma delas: os números.

Os números que nos acompanham desde o primeiro momento de vida. Registram a hora do nascimento, o dia, o peso, o tamanho. É aberto o placar. Não sabemos o que nos espera dali para frente, mas eles começam a correr.

Um ano depois, faremos aniversário. Comemoraremos um ano a mais, e ainda, inconscientemente, um ano a menos na escala da vida. Ironicamente, há um avanço e um retrocesso.

Não sabemos se vamos chegar aos 80 ou se interromperemos a trajetória, contando com bem menos. Mas quem convive com doença terminal sabe que cada amanhecer representa uma grandiosa esperança.

Na película, Hazel Grace e Augustus vivem os números que lhes foram permitidos. Não há tempo a perder, não há segundos a se desperdiçar. “Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados”, diz ela. Não há como ficar indiferente. Não há como não pensar em como estamos usando nossos dias e nossos números cravados em calendários e relógios.

O filme vai nos vulneralizando com o decorrer das cenas e com as inúmeras frases de efeito. Ouço uma moça, lá no fundo, soluçar. Outros se remexem com frequência nas poltronas, enquanto Estela amassa um lenço de papel atrás do outro. Cada um expressando os golpes que recebe a sua maneira.

Nunca vi tanta gente sair desmontada, emocionalmente, de uma sala de cinema. Encarei Estela, que, a essa altura do campeonato, era o próprio urso panda.

Você já fez obra na sua casa? Então vai se divertir com a crônica da Kátia Muniz

kátia munizMãos à Obra

cronicaskatia@live.com

Chegam os azulejos, os rejuntes, os porcelanatos, os sacos de cimento, areia, tijolo.
Sinto cheiro de mudança, de renovação, da casa com um ar novo, na mesma proporção que sinto também o cheiro de incômodo, se incômodo cheiro tivesse.
Obra em casa é legal desde que você esteja a uns bons raios de distância. De preferência em outro país.
Queria, na minha vida, um Luciano Huck que me convocasse para participar do quadro “Lar Doce Lar”. Aquele em que hospedam a família num hotel enquanto a casa vem a baixo. Derrubam paredes, alteram a planta original, pintam, decoram. A família só retorna com a residência reformada, reestruturada e limpa. Tudo pronto! Agora, é só fazer cara de feliz, o que, convenhamos, não é nada difícil, depois de passar um bom tempo com sombra e água fresca, enquanto um batalhão de gente arcou com gastos e perturbações.
Sorria, você está sendo filmado!
Quebram, martelam, furam. A bateria de uma escola de samba faz menos barulho.
Obra tem o poder de congelar o calendário, dentro da residência. Passam-se os dias lá fora. Internamente, a impressão é que se leva meses entre o assentamento de um azulejo e outro.
– Vai faltar cimento.
– Quanto, seu Zé?
Seu Zé não tem pressa no raciocínio. Gruda os olhos castanhos na parede fazendo uma conta imaginária.
Faço pressão: – Quanto, seu Zé?
Vinte anos se passam para ele afirmar sem muita convicção que precisará de dois sacos de cimento.
Corro até a loja de material de construção. Esses dias uma senhora me perguntou se eu estava trabalhando lá. “Olha, não duvido se encontrar o meu retrato pendurado, não como funcionária do mês, mas como cliente do mês”.
Tempos depois, retorno com o pedido.
– Vai faltar rejunte.
Faz tempo que não me deparo com meu próprio sorriso. Seu Zé deve tê-lo cimentado e rejuntado em algum lugar da casa. É bem possível que tenha surgido daí a falta de material.
– E paciência, seu Zé, vende onde?

Seu Zé fixa novamente os olhos na parede e mais vinte anos se passam.

Crônica do Dia

kátia munizQue trazes pra mim?

Por: Katia Muniz                                                                   cronicaskatia@live.com

Lá pela década de 70, era bem diferente. Não havia grande oferta, nem a variedade de chocolates e de embalagens que há hoje no comércio.

pascoa-05 A criançada ganhava miniaturas de ovos, coelhinhos minúsculos ou ovos com tamanhos que não beiravam o exagero.

As mães costumavam comprar os ovos com alguma antecedência, cerca de uma semana antes, para não correr o risco de faltar, e colocavam os chocolates na geladeira para não derreter.

As crianças esperavam, pacientemente, chegar o domingo de Páscoa para abrir as tais guloseimas. Passavam a semana salivando. Era uma tortura cada vez que abriam o refrigerador, mas sabiam esperar.

Aquela era a semana mais longa das suas inocentes vidas. Sete dias, uma eternidade.

– Mãe, quantos dias faltam para o domingo?

– Cinco dias.

– Ainda!

O calendário não tinha pressa, os segundos se arrastavam e a vontade de comer os chocolates só aumentava.

Era só na época da Páscoa que a criançada se deleitava. No restante do ano, até ganhavam um bombom aqui e outro muito lá na frente. Por isso, era um momento tão aguardado e tinha o seu encanto.

Vamos saltar para o ano de 2014.

Gosto de ver a criançada de boca aberta, pescoço esticado, com olhinhos hipnotizados a contemplar o parreiral de ovos de chocolate que proliferam nos supermercados.

Enquanto se entregam os presentes de Natal, os coelhos já estão a todo vapor produzindo os ovos. E enquanto se pula o carnaval, os chocolates vão chegando ao parreiral de ferro.

Mariazinha, que acompanha a mãe duas vezes por semana no supermercado, ganha um pequeno ovo cada vez. Abre ali mesmo e o devora. Passa o resto das compras com o rosto lambuzado denunciando a façanha.

Rodriguinho, não gasta nem as palavras. Aponta para o chocolate escolhido, e, rapidamente, a gostosura salta para suas mãos, e de suas mãos para a boca.

As crianças ganham chocolates dos tios, dos padrinhos, dos avós, dos amigos, dos pais e de quem mais se propuser a agradá-las. Ganham também na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e no domingo. Tanto faz se são 8 horas da manhã ou se já ultrapassam as 22 horas. Todo dia é dia, toda hora é hora.

Sem ter a sensação da espera e sem se importar com a da data programada para a comilança, elas já não salivam tanto pelo chocolate em si, pois esse não lhe é negado o ano inteiro. A expectativa, agora, fica por conta do objeto que acompanha o ovo. Nada é mais emocionante e excitante para elas do que quebrar o chocolate ao meio e ver saltar dele uns bichinhos de pelúcia ou uns brinquedinhos esquisitos.

Elas são seduzidas pelo recheio, pelo acompanhamento, pelo que está oculto, encoberto. É ali que moram a curiosidade e o desejo.

Chocolate elas ganham e comem aos montes nos outros meses. A única diferença é que, nos bombons que fazem parte da sua infância durante o ano, não há os tais brinquedos escondidos.

Resta-nos saber até quando.

Crônica do Dia

kátia munizCirco, cinema e teatro

Por: Kátia Muniz                                                                           cronicaskatia@live.com

Aos poucos a gente vai se acostumando, porque, algum tempo atrás, o lazer de final de semana (principalmente o dominical) da população se resumia a ocupar cada centímetro da enorme área do Aeroparque. Era para lá que famílias inteiras, grupo de jovens e crianças se deslocavam para bater uma bolinha, jogar vôlei, fazer caminhadas, andar de bicicleta, andar de patins, fazer manobras radicais no skate, praticar saltos de paraquedas, levar o cachorrinho para passear, observar a criançada gastar energia nos brinquedos infláveis, disputar o espaço concorridíssimo na sombra das pouquíssimas árvores, conversar, acompanhar o sobe e desce dos aviões, interagir e desfrutar os momentos.

Mas, eis que o último final de semana foi atípico: um circo instalado, estreia de badalado filme infantil no cinema e espetáculo nacional no teatro. Portanto, o parnanguara tinha em mãos um cardápio de lazer que há muito, mas muito tempo, não experimentava.

E com esse agito, tudo ao redor se movimenta e ganha vida. Vende-se a pipoca, como se vende a hotelaria e a gastronomia. Assim, o comércio em geral também se impulsiona.  Uma coisa puxa outra e todos ganham, se não dinheiro, entretenimento.

Que por aqui se apresentem os artistas locais, regionais e nacionais. Que nos presenteiem, com seus múltiplos talentos, nos vários segmentos, como as artes plásticas, artes cênicas, literatura, música, dança.

Que a sempre linda e formidável sétima arte esteja presente e, através da alta tecnologia, vá cada vez mais se aprimorando para trazer ao público esse fascínio em tela grande.

Aplausos ao circo, que resiste ao tempo, que enfrenta a luta diária de permanecer vivo e levar graça e magia a adultos e crianças.

Aos poucos, a gente vai descobrindo e incorporando as regras de harmonia, de educação e bom senso que cada local exige. A prática, por si só, tende a trazer benefícios e a reforçar o aprendizado.

Sabemos. Mas muitas vezes insistimos em tropeçar nos erros básicos. Portanto, no cinema, o saco de pipoca e o copo de refrigerante têm o lixo como destino. No teatro, o silêncio se faz necessário, pois o simples ato de abrir o papel de bala é captado pela acústica e flashes não devem ser disparados. E mesmo no circo, onde explicitamente há o convite para a diversão, o ingresso não nos libera a um comportamento desmedido. E sim, claro, celulares devem permanecer desligados.

Aos poucos, a gente vai ganhando novas opções de lazer que vão muito além do sofá e da televisão da nossa casa.

A população, satisfeita, agradece.

Crônica do Dia

kátia munizMulheres, fardas e uniformes

Por: Katia Muniz                                                             cronicaskatia@live.com

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

 

Morando em uma cidade portuária, não pude deixar de reparar. Cada vez que aporta um navio da marinha para visitação, o mulherio se alvoroça.

Mas, porém, contudo, todavia, não é a pessoa do marinheiro em si que arrebata e causa entusiasmo entre as mulheres. A culpa é da farda.

Muitos terapeutas afirmam que as mulheres têm um real encantamento por fardas e uniformes. Pode ser da força aérea, da marinha, dos bombeiros, da polícia, mas não precisam ficar na alta patente. Algumas não ficam indiferentes aos médicos, dentistas e seus jalecos brancos, e muitas não deixam passar despercebido nem o macacão sujo de graxa do borracheiro sarado da esquina.

É bem provável que você já tenha se derretido por Tom Cruise, vestido de piloto em “Top Gun” e por Wagner Moura na pele do Capitão Nascimento em “Tropa de Elite”. Saindo da ficção, podemos reavivar a memória com Luma de Oliveira sucumbindo ao bombeiro Albucacys e, em 2011, com milhões de pessoas paralisadas assistindo ao casamento do príncipe William, lindo, loiro, fardado subindo ao altar com Kate.  E quando a mídia anunciou a frase dita por ele, captada através de uma leitura labial: “Você está linda!”, as mulheres ficaram hipnotizadas e congelaram diante do aparelho de televisão. Lindo, loiro, fardado e romântico. Era só o que faltava hein, meninas?

Mas vamos considerar que não é só o lado apimentado que a farda e o uniforme fazem aflorar. A vestimenta transmite sinais de proteção, segurança, admiração, virilidade, seriedade, masculinidade, disciplina, poder. Pacote completo para as mais contidas e discretas e também para as mais afoitas.

Estudos estão aí para comprovar que as fardas e os uniformes mexem com a imaginação e a libido feminina.

Muitas dizem que não. Então tá, a gente finge que acredita.

 

Crônica do Dia

kátia muniz

Tocáveis

Por: Kátia Muniz                                                                 cronicaskatia@live.com

Pode acontecer, sim. Nascemos. Estamos inseridos dentro de uma família, dentro de um contexto, mas, por um ou vários motivos, não nos reconhecemos ali. Temos uma infinidade de pessoas ao redor e, ainda assim nos sentimos sós.

Até que um dia aparece alguém, que não bate à porta, não pede licença e invade a nossa vida como um furacão.

Ao invés de nos sentirmos incomodados, nos alegramos. Foi um estranho que apareceu e finalmente nos trouxe paz.

Acontece, sim. Existem pessoas que não conhecemos, com as quais não há laços de sangue, e que podem até possuir determinados gostos e atitudes tão diferentes das nossas e, ainda assim nos arrebatam e nos envolvem de uma forma única.

São pessoas que vieram para fazer a diferença. Cuidam, dão carinho, respeitam, transmitem afeto, são solícitas. Parece que foram feitas sob medida, e que por alguma razão, cruzam o nosso caminho.

Chegam, encaixam-se, formatam-se, juntam-se, unem-se e acabam se tornando pessoas importantes e imprescindíveis nas nossas vidas.

Se você, caro leitor, assistiu ao belíssimo “Intocáveis”, sabe do que eu estou falando.

No filme: um negro, um branco. Um pobre, um milionário. Enquanto um é requintado, o outro se extravasa em gestos simplórios (o que não significa serem menos importantes à vida). Um com vigor, outro tetraplégico. Um conhecedor das artes, outro com passagem pela polícia. Um o contrário do outro e acontece a fusão, o encaixe, o complemento que faltava.

A vida passa a ter outro gosto, outro ritmo, outra visão, outro jeito, outra forma, outra direção.

Só quem nos toca tem essa capacidade, esse poder, esse alcance. No caso do filme, a amizade prevalece e se fortalece.

E é realmente lindo quando acontece! Porque não é só a mão que repousa que nos dá segurança e acalma. É o conforto da presença, é o toque na alma. E quem nos toca, apresenta a nós o mais sublime dos sentimentos: o amor nas suas infinitas formas.

 

Crônica do Dia

kátia munizO silêncio de uma mulher

Por: Katia Muniz                                                                         cronicaskatia@live.com

Março, mês da mulher. Não cabemos mais em um único dia, queremos o mês cheio, queremos ser lembradas, paparicadas, agraciadas não somente no dia 08, mas em todos os dias do mês, e, se não for pedir muito, durante o ano todo.

 Mês de palestras, de comemorações, de jantares, de flores recebidas, de inúmeros cumprimentos pelas nossas conquistas que não são poucas.

Mulheres que sorriem, que falam muito, que correm atrás de seus sonhos. Tudo isso foi e será muito debatido dentro do mês da mulher. O que falar então?

Não falarei da mulher verborrágica, não falarei das conquistas. Vou arriscar ir exatamente ao contrário, às avessas. Vou falar do silêncio de uma mulher.

Enquanto trabalhamos, administramos um lar e as infinitas atribuições a que nos submetemos, nos calamos. Em alguns momentos é com o silêncio que queremos dar as mãos. É com ele que gostaríamos de ficar sem sermos interrompidas.

Uma amiga, que viajou sozinha por esses dias, me confidenciou: “Viajei em minha companhia. Namorei eu mesma. Curti o que há de melhor e de pior em mim. Não dividi nada com ninguém. Permaneci em silêncio.”

É no silêncio que nos aprisionamos e nos libertamos. É no silêncio que achamos respostas para nossos questionamentos e formulamos outros. É no silêncio que conversamos com nosso eu. É no silêncio que descobrimos se continuamos ou se é hora de parar. É no silêncio que nossa alma fala. É no silêncio que pronunciamos nossas melhores palavras. É no silêncio que fazemos uma pausa, que refletimos, que damos o nosso grito de socorro. É no silêncio que rimos sozinha, que choramos, que enfrentamos nossos medos, que lidamos com nossas frustrações.

Receberemos com imenso carinho todas as felicitações, aceitaremos felicíssimas, todo o burburinho que a data provoca, mas é no silêncio, e somente nele que cada uma se renova e se encontra. Você já esteve com você hoje?