Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Que horas ela volta?

Por: Katia Muniz

Se você ainda não ouviu falar de Anna Muylaert eu informo: ela assina a direção do filme “Que horas ela volta?”.

O longa já ganhou prêmios nos festivais de Sundance, nos Estados Unidos, de Berlim, na Alemanha e disputa uma indicação ao Oscar.

A película trata da relação patrão/empregada.

Torceu o nariz? Destorça.

Se você me acompanha aqui, na coluna, sabe que eu arrasto um caminhão por temas do cotidiano e, nesse quesito, o filme bebeu da fonte.

Regina Casé interpreta Val, a empregada. Sua atuação é IM-PE-CÁ-VEL! Assim mesmo, em maiúsculas e com separação silábica, reforçando o tom pausado. A atriz conseguiu engavetar o sotaque carregado de “s” e fez surgir um outro: o nordestino. Na medida, sem nenhum exagero. Nem de longe lembra a apresentadora dominical do Programa Isssssssquenta.

Não há paisagens exuberantes no filme. Mas o retrato fiel de uma São Paulo concretada. Muitos prédios vistos pelos olhos da personagem, enquanto se desloca nos  vários ônibus que utiliza para ir e vir. Está lá também a obediência cega aos patrões, a qual lhe garante o emprego e o quartinho nos fundos da casa.

Uma cena? A que a empregada serve os convidados numa festa sem que nenhum deles a encare. Ela é invisível diante deles.

Podemos acusar o golpe?

Será que costumamos cumprimentar o gari ou a servente que trabalha dentro dos banheiros nos shoppings ou eles também são invisíveis para nós?

O filme destaca e reforça a diferença social que delimita o “cada um no seu quadrado”.

Há cenas comoventes, cenas com humor, cenas do dia a dia e um pedido: um olhar mais atento e humanizado para a Maria, a Raimunda, a Janicleide ou qualquer outro nome que conste no RG daquelas que cuidam da nossa casa e, muitas vezes dos nossos filhos, enquanto saímos em massa para o mercado de trabalho. Elas, literalmente, possuem identidade.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Perguntas em busca de respostas

Por: Katia Muniz

Quando soube da reforma da Praça do Guincho, vibrei.

Espaço renovado, bancos novos, paisagismo, boa iluminação. Tudo para fazer jus ao entorno belíssimo, digno de cartão postal, que a natureza de bom grado nos entregou.

Desde junho, um tapume reveste toda a praça. Nesses dias, me peguei tentando enxergar, por uma fresta, o que havia do outro lado. A curiosidade sempre andou de mãos dadas comigo.

Agora não preciso mais esticar os olhinhos curiosos. Vândalos agiram e destruíram não só os tapumes, mas também parte das benfeitorias já realizadas. Volta-se à estaca zero.

Choro, grito, esperneio, faço o quê? Escrevo.

Paranaguá, porque a maltratam tanto?

Acho você tão bonita, tão cheia de graça, tão charmosa, com seus casarios históricos, com suas ladeiras. Entrega-nos de graça um rio e uma brisa capaz de nos revigorar e nos refrescar em tempos de calor escaldante.

Por que tanta gente insiste em jogar lixo na rua? Por que tantos abandonam mobílias velhas em locais públicos? Por que a Estação Ferroviária é, hoje, uma das nossas inúmeras vergonhas?

Que prazer sórdido é esse que faz destruir o que está sendo construído para o bem da coletividade?

Ah, Paranaguá! Incapaz de eleger um deputado estadual e federal, pois na época das eleições, muitos se candidatam apenas para medir sua força política, o que provoca a divisão de votos.

Paranaguá, eu sinto a sua dor. Fico triste ao perceber o quanto agoniza e perde suas forças.

Na morosidade típica e burocrática do funcionalismo público, as obras da Praça do Guincho serão retomadas.

Paranaguá, são tantas perguntas e não consigo encontrar as respostas. Mas prometo fazer só mais uma. Responda-me com o fio de força que lhe resta: Quem de fato nessa cidade te ama?

Crônica do Dia com Katia Muniz

Antes do Amanhecer

Por: Katia Muniz

antes-por-do-solApós assistir ao fabuloso “Boyhood”, saí do cinema cambaleando de emoção – isso tem tempo, foi em novembro do ano passado – e, desde então, venho prestando atenção em duas coisas: primeiro, no ator Ethan Hawke e, segundo, no diretor Richard Linklater.

Ethan virou meu queridinho. E lá fui eu dar uma olhada em outros filmes que ele protagonizou. Achei a trilogia do “Antes”, composto por: Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite. Todos assinados pelo mesmo diretor. Como se vê, Ethan também é o queridinho de Richard Linklater.

Um dia desses, usei uma imagem do filme Antes do Amanhecer para ilustrar uma crônica minha, no Facebook. E, assim como eu, tempo atrás, descobri que muita gente desconhece o filme.

Eu sou fã assumida do cotidiano. Deve ser por esse motivo que escrevo crônicas.

Gosto, realmente, do dia a dia. E das surpresinhas que a vida nos traz para sairmos da letargia e do marasmo.

Encontrei em Richard Linklater o mesmo gosto. Ele dirige sem pressa, preso a detalhes, escolhendo as cenas a dedo.

Antes do Amanhecer fala sobre paixão.

Em uma viagem de trem, os protagonistas se conhecem e não demoram muito para descobrirem que não era somente uma viagem qualquer.

Ele a convence a desembarcar em Viena, mas no dia seguinte, ela precisa estar em Paris e ele, retornar aos Estados Unidos.

A partir daí se dá o encantamento do filme.

A paixão cronometrada no relógio. A paixão com dia e hora para encerrar. A paixão com direito a intervalo, pouco tempo depois de nascer.

O casal passeia, conversa, troca o primeiro beijo, brinda o amor, dorme na grama de um parque, vê o dia amanhecer, faz a promessa de um novo encontro.

O filme é lindo na fotografia e em diversas cenas, incluindo a que os dois põem o sorriso bobo no rosto. Aquele, típico de quem está perdidamente apaixonado.

E segue assim, mostrando nuances, retratando a beleza que é descobrir o outro. Convidando a quem assiste a fazer os mesmos percursos do casal. Cutucando sentimentos.

Há quem não goste da lentidão, prefira a urgência dos fatos e o atropelo dos momentos. Se você faz parte do segundo time, não perca seu tempo vendo o filme, muito menos a trilogia.

“Antes do Amanhecer” nos diz de maneira sutil, através de seus protagonistas, que o dia amanhece para todos, mas não são todos que sabem viver e aproveitar cada segundo.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Três anos depois

Por: Katia Muniz

Faz três anos que, toda sexta-feira, ouço meu nome na Rádio Ilha do Mel FM.

A jornalista Luciane Chiarelli e o âncora do jornal Rede Notícias, Flávio Petruy, emprestam suas vozes aos meus textos, leem frases das minhas crônicas, fazem comentários, dão opiniões.

Deixam o convite para a audiência, que os prestigia, a ler o que eu escrevo.

Assim, nossa ligação tem se solidificado. Parceria é um jeito, uma outra forma de se dar as mãos.

Comecei a escrever num ímpeto. Talvez, em toda a minha vida, essa tenha sido a única vez em que dei asas à impulsividade. A única vez em que não medi consequências. A única vez em que pensei no momento e não no futuro. Quem convive comigo sabe o quanto mantenho os meus pés bem fincados no chão. Que a razão costuma ser minha companheira inseparável.

Meus primeiros textos foram uma brincadeira, um hobby, uma ocupação de tempo.

Quando dei por mim, tinha uma coluna no jornal. Quando dei por mim, firmei parcerias. Quando dei por mim, meus textos ganharam espaço em dois blogs. Quando dei por mim, era lida.

A foto na coluna do jornal me identifica. É o rosto que autentica as letras. É o rosto que forma frases e parágrafos. É o rosto que assina os temas semanais das crônicas.

“Eu acompanho seus textos”.

Acuso o golpe cada vez que ouço essa frase. Ela me puxa para a realidade. Diz que, mesmo no silêncio e na solidão de cada texto que componho, há olhos, há reflexões, há respostas, há mensagens de apoio, há gente pedindo conselhos, há pessoas dando sugestões de pauta, há uma infinidade de alcances.

São quase quatro anos de coluna semanal e três anos de comentários na rádio. Festejo hoje, de maneira mais séria e responsável, a brincadeira do passado.

Aos que me acompanham nessa trajetória, meus grandiosos agradecimentos.

Cronista? Sei lá.

Sou só alguém que passou pelas portas que se abriram. Que resolveu deixar entrar as oportunidades que me visitaram.

Aos que seguem comigo, um brinde!

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2As idades

Por: Katia Muniz

Idade boa é aquela que tem sempre alguém resolvendo as coisas para nós. Escolhem nossas roupas, nos carregam no colo, dão comida na boca, nos dão banho. Crescemos um pouquinho, conseguimos caminhar com nossas próprias pernas, mas continuam a nos dar a mão para atravessar a rua, a marcar consulta no dentista, a nos levar ao médico e a nos dar remédio. Ainda não nos apresentaram a palavra responsabilidade.

Idade boa é aquela em que não basta apenas existir, é preciso aparecer. E para nos destacarmos no meio da multidão, a gente pinta o cabelo de vermelho, descolamos uns tênis coloridos, perfuramos o corpo e penduramos uns metais, marcamos a pele para sempre com dragões e caveiras, escutamos música no mais alto volume. E não estamos nem aí para o que dizem da gente. A onda é correr riscos e descobrir novos caminhos. E só não vamos mais longe, porque não temos um mísero centavo no bolso.

Idade boa é aquela em que a gente consegue o tão sonhado emprego.  Finalmente, vamos ter a grana que tanto queríamos. Independência à vista! Mas logo na entrevista, nos dizem que o cabelo não pode ser vermelho, que os piercings não são bem-vindos e que as caveiras e os dragões devem ficar bem escondidos. É nessa idade que a gente aprende que, para conseguir algo, temos que, em troca, abrir mão de uma série de outras coisas.

Idade boa é aquela em que encontramos a nossa cara-metade, e nosso coração aprende a ficar em disparada. É quando resolvemos juntar as escovas de dentes, termos companhia constante, sentir a delícia que é passar as noites de inverno aconchegados embaixo do mesmo edredom.

Idade boa é aquela em que os filhos já cresceram, que os netos aparecem de vez em quando, e a gente dá a atenção devida, mas sem nenhum tipo de responsabilidade sobre aquelas criaturinhas tão fofas. Já temos estabilidade financeira, não damos importância nenhuma para o que pensam de nós e, maravilha das maravilhas, ainda temos um bom tempo pela frente para aproveitar a vida.

Bom mesmo é ter o privilégio de passar pelo maior número de idades possível, sem apressar os passos, sem dar saltos e nem pular etapas.

Bom mesmo é viver cada uma delas, porque o acúmulo dessas idades é que nos dá a tão esperada experiência de vida e nos fornece histórias para contar.

Crônica do Dia- O amor pede afinidades

kátia-muniz2O amor pede afinidades

Por: Kátia Muniz       

“Os opostos se atraem”.

love amorNão sei quem disse essa frase que se alastra feito erva daninha, mas eu não consigo achar nenhuma graça e nenhuma lógica nela.

Nunca me senti atraída por gente que é totalmente oposta a mim.

Uma amiga me contou que bateu o olho em um determinado rapaz e gostou. Era um bom sinal mas, conforme a conversa avançava, as diferenças entre os dois causavam um curto-circuito. Ele gostava de praia, ela de campo. Ele curtia pagode, ela era fã do Coldplay. Ele queria assistir aos inúmeros telejornais, ela queria ir ao cinema. Ele dizia “a gente vamos” e ela foi mesmo, mas sozinha, porque não estava nem um pouco a fim de passar o resto dos seus dias com alguém que zerava, por completo, as possibilidades de um relacionamento tranquilo e duradouro.

O amor pede afinidades.

Encontrar alguém com quem não se precisa ter o desgaste emocional para definir um simples lugar para jantar é, no mínimo, glorioso.

Não, não bate tudo 100%. Em alguma coisa haverá divergência. Mas que esse momento seja enfrentado como um teste, como um aprendizado, como um ensinamento, uma lição de casa. Porque tudo igual, tudo do mesmo jeito também cansa e dá sono zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Há de se ter algumas pitadas de diferenças para incrementar a receita do relacionamento. É perfeitamente compreensível que você só coma salada enquanto ele aprecie uma boa massa. Isso não é, nem de longe, motivo para se fazer as malas e bater a porta. The end.

Diferenças nos encaminham para o amadurecimento. São necessárias e benéficas para o exercício das concessões em favor da harmonia do casal.

O amor não pede competição. Não é arena em que um quer nocautear o outro. Em que um se vê vencido por ter torturado o seu par a tal ponto que ele ceda a seus caprichos e infantilidades.

Amor pede um cardápio de compreensões.

Os opostos se atraem na Física. Funcionam com ímãs de geladeira, já com as pessoas…

Para dividir a vida e os lençóis, eu fui atrás de alguém bem parecido comigo.

Alguém que me trouxesse paz e tranquilidade. Alguém que sentisse a mesma vontade de transformar os dias em algo leve, sem excessos de neuras, de ciúmes e desconfianças. Alguém que soubesse respeitar o meu espaço e a minha vontade de abraçar o silêncio. Encontrei.

Estamos aqui, brindando 20 anos juntinhos. Enquanto ele ouve AC/DC, eu ouço Enya.

Crônica do Dia: O pai e a mochila

kátia-muniz2Por: Kátia Muniz

Eu aguardava, dentro do carro, meu filho sair do colégio, quando vi um pai segurando em uma de suas mãos a mão do filhinho e, na outra, a mochila de rodinhas.

Continuei acompanhando a cena. Ele deixou a mochila na calçada, colocou a criança na cadeirinha do carro, prendeu-a com o cinto e depositou um beijinho carinhoso no rosto do menino.

Nesse momento, meu celular tocou e abandonei por uns minutos a encantadora cena entre pai e filho.

Quando voltei os olhos o carro já não estava mais lá, mas a mochila permaneceu na calçada. O pai havia esquecido o objeto.

Recolhi a mochila e a levei para a secretaria da escola.

Fiquei imaginando o que aquele pai deve ter escutado da mãe do garotinho quando chegou em casa. Aliás, deve ouvir até hoje, pois toda mulher é mestra em desenterrar o passado.

Essa história já tem uns quatro anos, mas ainda deve ser assunto em alguns almoços daquela família.

A abstração do homem é a neurose da mulher. No fundo, no fundo invejamos essa capacidade que eles têm de se concentrar somente no que interessa. De focar o objetivo e se desligar do restante.

Já as mulheres, coitadas, todas doidas absorvendo tudo a sua volta, inclusive o que eles esquecem por aí.

Eu não presenciei o que a mãe do garotinho disse ao pai, pelo fato dele ter esquecido a mochila. Talvez tenha feito um escarcéu, ou se voltou há pouco tempo de um retiro budista, pode ainda se encontrar zen e achando tudo uma maravilha.

Mas eu presenciei o trajeto deles até chegar ao carro. A mão firme do pai segurando a mãozinha do filho. O cuidado em prendê-lo à cadeirinha. E o ápice: o beijo do pai, no garotinho.

A mochila era coadjuvante nessa história. Tão sem importância que foi esquecida. O bem precioso era a criança, era o filho.

Se fosse a mãe buscando a criança…

Deixa para lá. Sobre as mães comento em maio. Agora, estamos em agosto, prestes a celebrar o Dia dos Pais.

Eles que andam surpreendendo, a cada dia mais, com atitudes positivas na criação da prole.

Ah, papais! Continuem a dar atenção, amor, beijo e toda demonstração de afeto e carinho, explicitamente. Seus filhos agradecem e o mundo também.

Crônica do Dia- Paixões Proibidas

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

No mês de junho, escrevi três crônicas falando sobre o tema: amor.

“Acontece”, título do meu último texto e que foi publicado na semana passada, teve uma excelente aceitação e também provocou burburinho. Recebi inúmeras mensagens e alguns pedidos em tom de sussurro: “Fale das paixões proibidas”.

Sabemos: há as paixões reveladas e as que são carregadas em segredo.

No começo, a aventura atrai e brincar com a possibilidade do flagra vira uma excitação.

O sexo reina absoluto e torna-se desafiador manter o relacionamento no anonimato.

Mas o prazo de validade costuma ser curto. Logo o casal cansa desse recolhimento, dos gemidos abafados, das janelas sempre fechadas, das cortinas cerradas, da porta trancada à chave.

Começa a virar um incômodo o celular desligado, os encontros furtivos, a logística cheia de mentiras à mostra e verdades encobertas.

O que era excitante no início torna-se um fardo, um peso, uma sobrecarga.

Os dois sentem-se presos, acorrentados, confinados, trancafiados.

A paixão infla, pede mais espaço. Não cabe mais em quatro paredes. Almeja o lado de fora. Quer mostrar-se ao público. Requer plateia. Busca exposição.

Deseja ir ao cinema, ao teatro, ao barzinho. Quer se exibir. Quer vir à tona. Quer andar de mãos dadas.

Uma hora, toda paixão proibida pede ar, ventilação, oxigênio. Não se sustenta somente pelo sexo. Precisa de mais.

Quer ser vivida na sua plenitude. Quer ser assunto em rodas de conversa. Quer fazer parte do todo.

Pode até tardar, mas não falha o desejo comum que toda relação anseia: a validação e o reconhecimento público dessa união.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Acontece

Por: Katia Muniz

Acontece com mais frequência do que a nossa mente possa imaginar.

Acompanhe: você está aí levando a sua vida normalmente, dentro de uma rotina previsível, até que cruza o olhar com alguém.

Pronto. Sua vida pacata acaba de ganhar novos ares.

Você não sabe explicar o que aconteceu. Por que raios aquela pessoa com quem você trocou meia dúzia de palavras, anda, insistentemente, ocupando um espaço especial nos seus pensamentos.

Nunca aconteceu com quem o atende todos os dias na padaria. Nunca aconteceu no ambiente de trabalho, com quem você divide a maior parte do seu tempo. Nunca.

Mas até o nunca tem seus dias contados. Até o nunca cansa dele mesmo. Até o nunca se fragiliza, se quebra, se rompe.

E veja só, aí está você sem saber o que fazer com esse curto circuito interno. Com esses fios que se desconectaram. Com essa pane.

Acontece. Sem hora prevista, nem dia marcado.

Você pode ter 15, 20, 30, 45, 58, 72 anos. Você pode estar livre, leve e solto ou pode estar num relacionamento de anos.

Basta somente uma coisa: estar vivo.

Uma vez vivo, você sente, enxerga, ouve, deseja, pensa, fantasia.

Uma vez vivo, você está sujeito a todo tipo de emoção.

Acontece. Às vezes aparece alguém que faz um click. Que desperta algo diferente. Que faz você botar um sorriso meio bobo no rosto. Que desconcentra. Que provoca sensações que permaneciam repousadas.

Não há respostas. Não há explicações.

Por que aconteceu com você?

Não é só com você. Acontece no mundo todo.

Acontece aqui, ali, acolá.

Uns dão vazão ao sentimento despertado. Outros sufocam, abafam, prendem, reprimem, trancafiam a sete chaves.

Acontece porque você é humano e carrega um coração que pulsa dentro do peito.

Crônica do Dia, com Katia Muniz

kátia-muniz2Um brinde ao amor

Por: Katia Muniz

Sexta-feira, 12 de junho, Dia dos Namorados.

 

 

No facebook, o amor apareceu retratado nas mais variadas formas.

Fotos de casais bateram recordes. Estavam abraçados, trocando um beijo ou apenas se olhando. Com aquele olhar que só os casais apaixonados têm.um_brinde_ao_amor03

Declarações, poemas, versos pinçados.

Um dia em que a tal rede social ficou leve. Um dia em que o amor foi explorado à exaustão. Enquanto uns abriam o coração em palavras carinhosas, outros se machucavam por não ter alguém para dividir o dia e a vida. Para esses últimos, segue o meu desejo que o cupido trabalhe em horas extras e tenha pontaria certeira.

Voltando.

Diante das inúmeras fotos postadas encontrei uma que me chamou a atenção. Nela, duas taças com champanhe e entre as taças uma mamadeira azul.

Bravo!

O amor a três. O amor em família. O amor em número ímpar. O amor em construção diária. O amor na intimidade.

A foto dizia tudo sem mostrar quase nada. Deixava subtendido. Aguçava a imaginação.

Não havia rostos sorridentes, não havia mãos dadas, não havia carinhos explícitos. Ainda assim, carregada de beleza. Singela. Tocante.

Gosto dessas revelações discretas, sem muitos holofotes, sem microfones, em que as palavras certas são ditas ao pé do ouvido, tendo como plateia quem realmente interessa.

Gosto do inusitado, do que foge à regra, das surpresas, do inesperado.

Enquanto muitos casais aguardavam em filas de restaurantes por um jantar romântico com direito a um atendimento sofrível, característica das grandes datas, os autores da foto preferiram ficar em casa.

Enquanto muitos casais lotaram motéis, os autores da foto escolheram o aconchego do seu quarto e a cama que os reconhece.

Enquanto muitos casais despacharam os filhos para as casas dos parentes, buscando um momento a sós, o casal comemorou com o filho gerado.

Duas taças e uma mamadeira. Uma foto e o amor celebrado.