Crônica do Dia

kátia-muniz2Cadeados do Amor

Por: Katia Muniz

1389274981-new-call-to-clear-pont-des-arts-love-locks-in-paris_3639292Paris, Pont des Arts.

Durante muito tempo, casais do mundo todo fixavam um cadeado nos gradis da ponte como prova de amor eterno.

Resultado: o peso dos inúmeros cadeados começou a comprometer a estrutura. A prefeitura interveio e promoveu a retirada a fim de devolver a segurança aos transeuntes.

Paris, considerada uma cidade romântica, perde um símbolo do amor.

Mesmo que em silêncio, as pessoas ainda sonham com um grande amor. Aquele capaz de dar um novo sentido à vida. Aquele que provoca um novo olhar. Aquele que faz brotar um sorriso no rosto. Aquele que faz levitar.

Mas poucos se dispõem a investir em tudo que um amor solicita.

Nos dias atuais, não há muita paciência para as negociações. Discutir a relação? Pra quê. Ceder? Nem pensar. E fazer as malas nunca foi tão fácil.

Os cadeados da Pont des Arts eram uma simbologia, uma promessa de casal. Um desejo que o sentimento fosse adiante. Uma aposta do presente, no futuro.

Os cadeados eram um “Eu te amo” metalizados. Eram votos de amor eterno. Era um jeito de prender o casal e desaparecer com a chave.

Retirá-los foi uma interferência no amor alheio, uma invasão, uma intromissão, uma ruptura do desejo acordado em par.

Não sabemos se os pares que eternizaram o amor na ponte ainda estão juntos. Mas, um dia aclamaram por estar. Um dia celebraram o que os unia. Um dia sentiram a vontade arrebatadora de permanecerem juntos. Um dia sonharam com o futuro. Um dia os dois eram um só.

Mas, quem diria: o amor pesou, justamente, em Paris.

Zzzzzzzzzzzzzzzz- Crônica do Dia

kátia-muniz2Por: Katia Muniz                                                                        katiacronicas@gmail.com.br

Cada pessoa tem um ritmo nas horas de sono, que consegue pôr em prática quando as responsabilidades e as obrigações não batem à porta.

Se você é notívago, ou seja, gosta de dormir tarde e, por consequência disso, acordar tarde, coitado!

A padronização no mundo das empresas pede que às 8h da manhã você esteja a postos. Isto significa que, dependendo da cidade onde mora e do meio de transporte que utiliza, você tenha que se pôr em pé com duas, três horas de antecedência.

Lembrando que para muitas pessoas se pôr em pé, não é o mesmo que acordar.

Algumas balbuciam um bom-dia pouco audível enquanto se arrastam.

O cérebro automatizado fornece os comandos. Banheiro é aqui. Café da manhã. Escolha uma roupa, escolha uma roupa…, apresse-se, pois a hora corre.

Lá vai você dirigindo o seu carro. Executa os movimentos no piloto automático que o carro, infelizmente, não possui. Vira à direita, vira à esquerda. É um perigo à solta. No trânsito, ninguém percebe suas pálpebras pesadas, suas olheiras acinzentadas, seu mau humor, seu sono brutalmente interrompido.

Durante a manhã, fala o mínimo possível. Torce para que não tenha que tomar nenhuma decisão. Morre de medo de se comprometer com algo que, ao acordar, não possa cumprir.

Serviços executáveis em quinze minutos levam uma hora. Você disfarça o indisfarçável. Tenta, sem sucesso, pôr para funcionar o seu corpo, que implora uma cama.

Sempre admirou os que estão às 6h da matina praticando exercícios físicos; os pedreiros que chegam às obras, às 7 horas, pontualmente; os professores que se põem a ensinar para os alunos que bocejam.

Almoça, faz a sesta, espreguiça-se, lava o rosto. Coloca, enfim, um sorriso verdadeiro no rosto. Fala em tom firme e anda com passos certeiros. Finalmente acordou.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Amar é…

Por: Katia Muniz                                                                          katiacronicas@gmail.com

Dizer que ama é fácil, o difícil é ter atitudes que comprovem esse amor.

Muitas pessoas não gostam de ficar dizendo “eu te amo” a todo momento, mas vejam só quanto empenho: agradam, fazem carinho, se fazem presentes, são compreensivas, cuidam, zelam, mantêm-se atentas, enxergam o outro, valorizam, admiram, apreciam, gostam, sentem falta, reconhecem, estimam.images

Se você pensa que estou falando de relacionamento de casal, errou feio. O relacionamento de que vou tratar aqui é do cidadão com sua cidade.

Amar a sua cidade é também zelar por ela. Se ela o acolhe como filho, não seja ingrato, devolva com atitudes positivas e de agradecimento àquela que fornece o ganha-pão de cada dia.

Quem ama sua cidade não sai na calada da noite para despejar lixo próprio em terrenos alheios. Não descarta sofás, geladeiras, gavetas, televisores em plena via pública. Não joga lixo na rua, não quebra e nem destrói o que é do coletivo.

Feliz da cidade em que moram pessoas que assumem a paternidade de seus atos. Que não ficam jogando responsabilidades que lhes cabem em colo de terceiros. Assumirmos a condição de cidadãos é o primeiro ato de amor que entregamos ao nosso município.

Cidadãos são todos aqueles que aqui moram, eu disse TODOS, portanto representantes eleitos pelo povo e a população em geral deveriam cuidar e zelar não só pelo metro quadrado que, de direito, lhe pertence, mas estender esse mesmo cuidado além do muro que o cerca. Atitude que configura, de forma clara, a educação e o respeito ao próximo.

É, no mínimo, desolador ver o patrimônio histórico abandonado, casarios sem conservação, Estação Ferroviária sem telhado, mato em crescimento fermentado, lixo acumulado em qualquer esquina.

Tapumes tentam esconder não só a degradação de construções importantes e históricas, mas a vergonha daqueles que poderiam ter feito mais em prol do coletivo e não fizeram.

Nenhum cartão postal é capaz de resistir, mesmo a natureza sendo privilegiada por essas paragens, a tanto descaso e descuido. E é fato que o verbo “conservar” é pouco conjugado por aqui.

Alguém falou em turismo?

Talvez seja prudente ressaltar que, para se receber bem, faz-se necessário arrumar, limpar e organizar a casa.

Assim como pessoas, cidades também adoecem. Não importa a idade que tenham.

Amar também é reverter o diagnóstico.

Crônica da Kátia Muniz

kátia-muniz2Mulheres, café e bate-papo

Por: Katia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

 

suzana2A amiga postou a seguinte frase em uma rede social: “Gastar tempo com aquilo que lhe der lucro emocional e não financeiro é ter um caso de amor com a vida.”

É fato que passamos boa parte da nossa vida correndo atrás do dinheiro. Com ele compramos roupas, alimentos e o que mais atender as nossas necessidades básicas.

O dinheiro compra também alguns sonhos. Uma viagem a Paris, por exemplo, ou um celular cheio de tecnologia.

Mas nada é mais arrebatador do que as emoções sentidas por atos generosos de amor. Aqueles a que a gente se entrega, se doa, se disponibiliza, se empenha.

Dia 09/05/15 é uma data que eu vou guardar, para sempre, na memória.

Agraciada com o meu nome no título de um evento, a princípio, não soube lidar direito com a situação. Tímida, com a designação recebida, enrubesci. Mentalmente, solicitei que o chão se abrisse e que eu sucumbisse na cratera que logo se abriria, quando, em voz alta, me disseram que o evento se intitulava “Café com Katia Muniz”. O chão fez pouco caso de mim, não se moveu.

O Grupo Escoteiros do Mar Ilha do Mel possui em sua sede, o Clube de Pais. Nesse evento específico, destinado somente às mulheres, por conta, principalmente, do Dia das Mães, fui chamada para falar a respeito de um tema proposto em um dos meus textos. A crônica escolhida chama-se “Conectados”, e trata da obsessão por nos mantermos o tempo todo ligados com os aparelhos de celulares e afins.

A organização contou com um número expressivo de mulheres que, não mediram esforços, arregaçaram as mangas e se propuseram a entregar o seu melhor possível. Aliás, “melhor possível” é um lema dentro do grupo.

Determinadas, decididas, concentradas, destemidas, esforçadas, entusiasmadas, encorajadas. Eram mulheres adjetivadas, unidas por um causa.

Lindo de ver tanta gente envolvida, somando atitudes, entregando-se de corpo e alma para que tudo saísse da melhor forma.

E saiu. O evento foi um sucesso pela somatória de forças, pela união e contribuição de cada pessoa que fez o encontro acontecer.

O “Café com Katia Muniz” já passou. Mas as emoções ainda continuam em ebulição, dentro de mim. Agradeci no dia e agradeço, novamente, em forma de texto.

Cada vez que me recordo da sala cheia, do bate-papo rolando solto, do café, das companhias, das fotos, sinto uma imensa alegria.

O café foi servido com empenho e estava recheado de guloseimas. Mas, a cereja do bolo ainda fica por conta de uma palavra sublime: AMOR.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Os desenhos da maternidade

Por: Katia Muniz                                                                              katiacronicas@gmail.com

Lucy Scott é uma ilustradora escocesa. Ela reuniu vários desenhos de sua autoria e lançou em livro.

Passarinhos, cachoeiras, sol, céu, mar, montanhas, estradas, carros. Nada disso. O que Lucy ilustrou foi o cotidiano dela mesma, depois que foi mãe.

Digamos que os desenhos retratam a rotina pós-maternidade, dando enfoque ao lado B. Aquele que ninguém ousa mencionar quando você anuncia que está grávida.

Ssssshhh! Nem um pio. Não se pode dizer a uma mãe de primeira viagem que o bebê vai querer mamar de 3 em 3 horas, que, possivelmente, ele terá cólica, que ela corre um sério risco de, ao trocar a fralda, sair toda lambuzada, que ele vai regurgitar na roupa dela, que ela vai ter olheiras que encostam nos pés, que dormir será um artigo de luxo, que ela vai perambular pela casa durante infinitas madrugadas, que o orçamento doméstico  será elevado às alturas, que um banho relaxante e demorado não lhe pertence mais.

E mesmo que, por uma distração, você chegue a mencionar algum dos itens do parágrafo anterior, as marinheiras de primeira viagem nem vão acreditar. Entrará por um ouvido e sairá pelo outro. As futuras mamães vivem em um mundo paralelo. Estão blindadas. Convenhamos, a natureza é mesmo sábia.

Lucy Scott escancara a realidade nua e crua da maternidade. Em inúmeros desenhos criativos  ela mostra, por exemplo, um passeio de carro. A mãe, na frente, dirigindo, e o bebê, aos berros, no banco de trás. Como se vê, tudo muito maternal e singelo.

Socorro! Para tudo que eu quero descer.

Outra ilustração mostra o casal detonado em um final de noite. Cada um jogado para um lado. Nem Beyoncé, cantando a dançante Single Ladies é capaz de ressuscitar um casal que tem um bebê recém-nascido em casa. Oh céus!

Socorro! Para o som DJ.

Mas, tudo passa. E com o tempo, as mães costumam esquecer os transtorninhos que a maternidade traz.

Basta o bebê escancarar aquele sorrisão banguela para elas, que todas as noites maldormidas tornam-se ínfimas.

As ilustrações de Lucy Scott são um divertimento e um prato cheio de identificações para quem vive a maternidade. Para as que ainda não adentraram o mundo das mães, não há susto que não seja superado. Portanto, fique tranquila. O livro em nada abala a procriação no planeta.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Nas alturas

 

Por: Katia Muniz                                                                                 katiacronicas@gmail.com

 

Menos de um mês, depois da queda do avião da Germanwings, na França, entrei num voo. A viagem era curta, levaria apenas uma hora para chegar ao destino.

 

Check in feito, tempo bom, tudo tranquilo.

 

Decolamos. Avião lotado. Serviço de bordo sendo realizado.

 

Aparentemente, todos demonstravam tranquilidade, até o exato momento em que, o piloto cruza o corredor do avião em direção ao banheiro.

 

Os passageiros que estavam posicionados na janela esticavam o pescoço por cima das poltronas, enquanto os que estavam sentados nas poltronas do corredor inclinavam a cabeça para o lado. Todos os olhos voltados para a mesma direção: a porta da cabine.

 

Quem sobrou dentro daquela cabine? O copiloto.

 

Infelizmente, o cérebro buscava na memória o acontecimento trágico da França. Momentos de tensão, minutos congelados, tempo paralisado e sorrisos apreensivos tentavam disfarçar o desconforto.

Sabemos que acidentes de avião são menos frequentes que os provocados em estradas. Considerando as condições precárias das rodovias brasileiras, a opção aérea além de encurtar o tempo de distância até o destino, nos oferece a possibilidade de uma maior segurança.

A repercussão que causa uma queda de avião é gigantesca. O fato de envolver muitas pessoas ao mesmo tempo numa tragédia faz com que, momentaneamente, a gente venha a reconsiderar este tipo de transporte, mas se formos calcular os acidentes que ocorrem diariamente, somente em solo brasileiro, saberemos que o avião ainda é uma forma segura de se viajar.

Só tive medo de voar na primeira vez que entrei numa aeronave. A novidade, a ansiedade, a expectativa e um misto de emoções tomaram conta de mim.  Em todas as outras vezes, desconectei. Não há muito o que se fazer em caso de algum problema.

Confesso que eu também segui o balé coreografado das cabeças que acompanhavam atentas a volta do piloto à cabine. Nunca antes na história da aviação, uma ida ao banheiro, por parte do piloto, foi tão observada e cronometrada.

Andreas Lubitz, o copiloto que derrubou o avião, na França, queria ficar conhecido no mundo todo. Conseguiu. Mas para isso, levou um monte de vidas inocentes, dentro da sua insanidade.

No voo, que eu estava, o avião pousou tranquilamente no seu destino. Que eu saiba, nem o piloto, nem o copiloto viraram capa de revista por terem cumprido sua tarefa, sua missão.

Nos resta agradecer, mesmo que no silêncio interno de cada um, por alcançarmos o solo e nos acostumarmos que pilotos também vão ao banheiro.

Crônica: Esse tal passado

kátia-muniz2Por: Kátia Muniz cronicaskatia@live.com

Dizem por aí que não é bom revirar o passado. Que o que passou, passou. Que

devemos nos concentrar no presente e olhar para frente.

Depende. O passado nada mais é do que uma história construída de acordo com

nossas atitudes, decisões e escolhas.

Passado é escola, são lições com erros pontuados de caneta vermelha e acertos

seguidos de parabéns.

Passado inclui altos e baixos, riso e choro, alegria e tristeza, amores e dissabores.

O passado registra nossa infância, brincadeiras, o medo do escuro, perguntas

curiosas para deixar nossos pais de cabelo em pé, primeiros amigos, um mundo

gigantesco para ser descoberto, desbravado, explorado. Tudo é grande aos olhos dos

pequenos.

Em nosso passado, desfilaram amores, cartas, bilhetes, cartões, rosas, perfumes,

bombons, letras de músicas, primeiro beijo, declarações em alto e bom tom. Amores

que foram bons ou ruins enquanto duraram, mas que de alguma forma nos marcaram e

nos ensinaram algo.

Passado tem o gosto de conquistar o primeiro emprego, o primeiro salário. Tem

o gosto da responsabilidade, da liberdade, do começar a direcionar a vida do jeito que a

gente quer.

Passado envolve lembranças, segredos inconfessáveis, e um “eu” que fomos

moldando aos poucos.

O passado está nos porta-retratos, em álbuns, em diários e, para os mais

moderninhos, em pastas e mais pastas dentro de um computador.

Há passado guardado em caixas de papelão dentro de algum armário. Há o

primeiro sapatinho, as roupas do batizado. Há um brinquedo que resistiu ao tempo: uma

boneca sem o cabelo, um carrinho sem algumas rodas, devidamente salvos por algum

coração de mãe.

Não sei quantos anos você tem agora, no exato momento em que lê este texto.

Não faço a menor ideia do tamanho do seu passado. Passado pode ser coisa muito

antiga, acúmulo de décadas, mas pode ser o minuto que acabou de passar. Independente

do tempo transcorrido, passado é necessário.

Somos hoje o resultado do que fomos lá atrás. Porque passado e presente têm

essa mania de se misturar, de se fundir e de se integrar.

Passado está sempre batendo à nossa porta. Revisitando. Difícil não deixá-lo

entrar.

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”, já dizia Mário

Quintana.

Crônica da Semana

kátia-muniz2Birdman

Por: Katia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

Birdman é o típico filme que divide as opiniões em três categorias: há os que amam, os que odeiam e os que precisam assistir a ele mais de uma vez para fazer uma análise mais apurada e, assim, formar uma opinião. Mas, nos três casos, é possível chegar a uma unanimidade: o filme é, no mínimo, intrigante.

A película conta a história de um ator que fez muito sucesso interpretando um homem-pássaro, um super-herói. Porém, na sequência da franquia, desiste de tudo e cai no esquecimento, ou seja, perde os holofotes. Vinte anos depois, decide voltar à ativa, na pele de outro personagem, atuando e dirigindo uma peça na Broadway.

O ator é Michael Keaton em uma atuação primorosa e elogiável.

As câmeras fazem um passeio interno pelas instalações de um teatro, encontrando os atores ora despidos de seus papéis, eles por eles mesmos, ora interpretando e ensaiando, enquanto um solo de bateria pulsa com veemência.

O filme disseca comportamentos do meio artístico. Fala sobre egos e vaidades que acometem aqueles que dão vida a personagens e que precisam a todo custo manter o seu espaço.

Ok. Corta para a vida real.

Você há de convir comigo que não precisamos estar em cartaz na Broadway para lidarmos com egos e vaidades. Um passeio interno, uma visita dentro de nós mesmos pode deixar o roteiro de Birdman no chinelo.

 

Não são todos que gostam de fazer essa introspecção e escutar o que nossos botões têm a nos dizer, mas deveríamos.

Somos mestres em apontar defeitinhos alheios, enquanto nós ficamos livres de qualquer suspeita.

Em várias áreas profissionais, é moleza encontrar gente que quer chamar a atenção, que deseja o lugar do outro, que promove alianças com pessoas influentes, na esperança, talvez, de que essas possam lhe garantir algum retorno, seja financeiro, seja de destaque profissional.

Vivemos em uma era em que é preciso aparecer, mostrar-se ao mundo. As redes sociais estão aí para dar uma forcinha, para expor todos os nossos passos como em um diário. O lado bom da vida sobressai e tratamos de esconder o que não dá ibope.

Arquitetamos, planejamos, escolhemos o nosso melhor ângulo. O que vai para consumo externo é só uma versão melhorada de nós mesmos. O que realmente somos se revela nos bastidores.

Coelhinhos em tempos de crise

kátia-muniz2Por: Katia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

No ano passado, escrevi um texto em que comentava da dificuldade de não se render aos apelos das crianças quando pedem, antecipadamente, ovos de Páscoa. Elas não têm muita calma para aguardar o grande dia e os pais não têm tanta paciência para negociações. Resultado: chocolates e mais chocolates são devorados com muita antecedência.

Neste ano, a crise nos oferece grandes lições. Uma delas é que as crianças, com ou sem birra, vão ter que esperar para, quem sabe, ganhar um. Somente um, nada de exageros. E quem tem mais filhos? Um só. Hora de colocar em prática a solidariedade. Dividam o ovo ao meio e tirem par ou ímpar para ver quem vai ficar com o brinquedo.

Por enquanto, o parreiral de ovos de Páscoa, dispostos estrategicamente perto dos balcões refrigerados, ainda está bem fechado, promovendo aquele escurinho que impossibilita a entrada da luz direta. Seria até romântico, se não fosse um assalto ao bolso.

Uma caixa de bombom chegando bem próximo a R$ 10,00 e ovos de Páscoa com preços nas alturas golpeiam o estômago, antes mesmo de serem devorados.

As moças contratadas para fazerem as propagandas e as demonstrações dos famigerados brinquedos, que ocupam o recheio dos ovos, ainda são pouco solicitadas pelos compradores. Elas esperam, ansiosas, que, nesta semana, o quadro mude. Que possam, enfim, recolher o bocejo, proveniente do cansaço de horas em pé e que, no lugar desse esgotamento, apareça um belo sorriso.

Famílias passeiam, por baixo do parreiral, com os pescoços esticados e os olhos arregalados comparando preços, enquanto os baixinhos disparam as solicitações: “Eu quero do Homem Aranha.” “Eu quero da Cinderela.” “Eu quero do Bob Esponja, da Barbie, do Batman, dos Smurfs, da Galinha Pintadinha, da Peppa, do Thor”.

Opções aos montes. Dinheiro à míngua.

Papais e mamães soltam a fala num tom de desesperança: “Ah crianças, vão ter que esperar!”

Aqui é o país “do jeitinho”. As crianças vão ganhar nem que seja um brigadeiro de colher. Mas é fato que o consumidor se comporta de maneira diferente e vem driblando, como pode, a atual situação econômica.

É criançada, bem-vindos, talvez, à primeira aula de economia. A crise é geral e não poupa nem os coelhinhos.

 

Crônica do Dia

kátia-muniz2Para você que eu tanto amo.

Por: Kátia Muniz                                                                            katiacronicas@gmail.com

Na infância, nunca levei muito jeito com bonecas, não tinha paciência para ficar dando comidinhas feitas com areia, nem para empurrar os carrinhos de plástico, usados para levar a boneca para passear.

Em compensação, gastava horas batendo numa folha de papel para que produzisse um som que lembrasse o de uma máquina de escrever, enquanto atendia, efusivamente, às chamadas imaginárias do meu telefone de brinquedo.

Eu era secretária executiva de uma grande empresa, tinha carro próprio e morava, sozinha, em um apartamento. Tudo isso aos 8 anos de idade. Minhas amigas, da mesma idade, estavam todas casadas com seus maridos de mentirinha e com duas ou três bonecas como filhas.

Muitos anos se passaram e, quando boa parte dessas amigas de infância tornaram-se avós, eu me tornei mãe.

Naquela sexta-feira, do mês de março, eu nasci para a maternidade dando à luz a você, meu filho.

Quando a enfermeira trouxe você, de banho tomado, com o cabelinho todo lambido para um lado, eu estiquei os meus braços e segurei você com aquele jeito que só as mães sabem.

E o botão da natureza humana foi ligado. De repente, eu sabia segurar, trocar fralda, amamentar. Não fez a menor falta a ausência do estágio com as bonecas.

Esses dias entrei no seu quarto, cuidadosamente, afastei os cabelos que caíam sobre a sua testa e depositei um beijinho carinhoso. Aquele beijinho que só as mães sabem dar.

Você abriu os olhos, resmungou um pouco e se levantou.

Eu fiquei olhando você se movimentar. Primeiro, até banheiro e, depois colocar o uniforme escolar e me perguntar o que eu serviria no café.

Café? Sim. Café. Não há mais as mamadeiras e, no lugar do berço, há uma cama, na qual daqui a um tempo, você, provavelmente, mal caberá. Aconteceu o que eu temia: você está crescendo.

Despediu-se de mim com um beijo. Aquele beijo que só os filhos sabem dar.

Fiquei sozinha, na inquietude dos meus pensamentos e remoendo todas as inseguranças de mãe, as mesmas que nos acompanham sempre, somente mudando as formas e as fases.

O cenário já se modificou. Não passo mais meus dias catando aviões, carrinhos da Hot Wheels, soldadinhos, que viviam espalhados pela casa. Minha sala retoma o seu posto, as almofadas permanecem no lugar, perdeu os ares de jardim de infância.

Nossos olhos, mais um pouco, já se nivelarão na mesma altura. E, mais para frente, será sua vez de abaixar seus olhos para que eles encontrem os meus.

Você vai adotando suas preferências, vai impondo seus gostos, vai ganhando autonomia. Tudo certo. Tudo normal. Estranharia se não fosse assim.

É preciso que você saiba: nunca perca a direção dos meus braços, eles sempre vão envolver você, como se fosse a primeira vez, daquele jeito que só as mães sabem.