Crônica do Dia- A Ignorância nossa de cada dia

kátia-muniz2Por: Kátia Muniz

Diante da epidemia de dengue que assola esta cidade, é fato que o poder público vem se esforçando no quesito limpeza. Há trabalhadores nas ruas cortando o mato dos canteiros, das praças e coletando o lixo. A cidade vem se propondo a colocar ordem na desordem que se acumulou durante anos e anos.

Menção honrosa às pessoas que, no trabalho voluntário, entregam seu tempo, sua dedicação e, principalmente, o amor ao próximo. Pensam na coletividade e se empenham em deixar um mundo melhor do que aquele que encontraram. São anjos disfarçados de pessoas comuns, à paisana, que abrem mão de parte da vida particular em prol do outro. Mereciam todos estátuas em praças públicas. Mas há outras características que os definem: não gostam de holofotes e não fazem muito barulho das suas realizações. Desconheço forma mais bela de humanitarismo.

Há mutirões de limpeza organizados pelos próprios moradores de bairros, há gente faxinando o quintal, há muita gente fazendo a sua parte.

Mas, infelizmente, há também os que não estão nem aí com os dados alarmantes que são divulgados, semanalmente, no boletim emitido pela Secretaria de Saúde.

Gente que faz pouco caso, que segue alheio às inúmeras informações divulgadas, incansavelmente, pela mídia impressa e falada, que permanece inerte ao combate do mosquito que faz ronda e ceifa vidas.

São pessoas que não se abalam, que continuam a propagar a sua pobreza existencial com atitudes prejudiciais a si próprio, aos seus familiares e à comunidade.

Não limpam o seu metro quadrado, jogam entulhos em locais públicos, negam a entrada dos vigilantes de saúde e estão sempre a postos para erguer o dedo e apontar as falhas alheias, tão facilmente detectadas no outro e tão camufladas em si próprio.

A ignorância tem a cruel capacidade de nos vendar os olhos.

Ignorância não no sentido de não ter oportunidade ou acesso às informações. A pior delas: aquela em que a informação chega, mas é descartada, deixada de lado, colocada em escanteio.  A falta de urbanidade costuma ganhar solo fértil quando é adubada pela ignorância. E esta, por sua vez, vai devastando aqueles que não se permitem crescer como pessoa. Que seguem a vida de olho no próprio umbigo, encarando-se no espelho que costuma lhes devolver uma visão distorcida de sua própria imagem.

Saudosismo

1997 - Get Dancing - frontPor: Katia Muniz

O programa “The Voice Kids”, que se encerrou no domingo de Páscoa, alavancou a audiência da emissora e nos trouxe um certo alívio em tempos tão difíceis. Não só pelo momento político conturbado em que vivemos, mas por nos mostrar a riqueza de talentos que se encontram espalhados por esse Brasil afora, além de nos dar a esperança de poder, enfim, ouvir música de qualidade.

Faz tempo que a produção musical, por essas paragens, vem em declínio. Não dá para generalizar, mas anda cada vez mais difícil separar o trigo do joio.

De gente que não consegue alcançar notas, de desafinação, de letras pobres em conteúdo, refrões pegajosos feitos para durar um verão e de pseudocantores que nascem do dia para a noite, já estamos cheios.

Na falta de algo que nos faça pulsar é comum encontrarmos algum alento em programas do passado. O canal pago “Viva” veio para preencher esse vazio.

É uma delícia ver “O Cassino do Chacrinha”, “O Globo de Ouro” e as novelas que marcaram uma época.

Repare que basta mencionar os anos 70 e 80 para que haja um burburinho.

Temos saudades de quê?

Do globo brilhante pendurado no teto, das luzes coloridas no chão, das discotecas, dos vinis, dos shows sem nenhum glamour.

Dos bailinhos, das matinês dançantes, das festinhas americanas, dos clubes, dos embalos de sábado à noite.

Temos saudades do Raul, Cazuza, Cássia Eller, Cindy Lauper, Madonna, Duran Duran, Kid Abelha, Metrô, Legião Urbana, ABBA, RPM, Biquíni Cavadão, A-Ha, Lionel Ritchie, Tina Tuner.

Sentimos falta da ingenuidade que se perdeu, da nossa juventude que ficou para trás, da vontade absurda de estar lá, naquela época fantástica.

Geralmente, não desperdiçamos as chances que nos são apresentadas de poder reviver aqueles momentos. Sentimos falta de alguma identidade, nessa onda fugaz e descartável que assola os dias atuais.

Nos anos 90, os “Mamonas Assassinas” surgiram com músicas que, para alguns, foi o primeiro sinal de uma decadência musical. Ainda assim, era possível dizer o que se pensava. Dinho, o vocalista, cantava “Robocop Gay” com ares de menino arteiro. Ninguém arrepiava os cabelos. Papais, mamães e as crianças eram fascinados pela banda. Não havia patrulha, não havia o politicamente correto. Hoje, possivelmente, o vocalista não abriria a boca. Estaria engessado no seu processo de criação e, muito provavelmente, o grupo todo estivesse atolado em processos.

Então, a gente tende a correr para o que nos promove algum revival, pois, no andar da carruagem seguimos de modo intranquilo e desfavorável.

Crônica do Dia: O que me cabe

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

Assoprei as velinhas com um fôlego de menina. Se você está aí curioso para saber quantas delas havia em cima do bolo, eu digo: quarenta e sete.

Puxei o ar, segurei e esvaziei os pulmões de uma só vez. Ato capaz de fazer corar até o lobo da história “Os Três Porquinhos”.

Em um passado não muito distante, fazer aniversário, para mim, era um martírio. Sentia o peso de qualquer idade inaugurada, em número duplicado. Eu não tinha 20, tinha 40. Eu não tinha 35, tinha 70.

Hoje, celebro a data de maneira tranquila, serena e com uma felicidade que me revigora. A responsável por essa mudança de comportamento? Vejam só que irônico: a idade.

Acumular idade é um presente.

A bolsa de marca famosa se vai, o sapato torna-se démodé, a blusa fica ultrapassada, a calça não serve mais, as bijuterias resistiram ao modismo de um único verão. Mas as idades vão ficando, se agrupando, se juntando, se apertando dentro da gente. Eu ainda tenho 5, 10, 15, 20, 30, 40 e 47 anos.

Tenho a somatória das escolhas que fiz, tenho família formada, tenho amigos de longa data e outros que estão chegando, tenho as músicas que me marcaram, tenho os livros que recentemente descobri, tenho os filmes a que assisti.

Tenho momentos, memórias, lembranças, viagens, passeios.

Tenho sonhos, metas, arrependimentos, desilusões, fantasias, desejos, vontades, delírios.

Ao soprar velinhas, não zero o passado. Carrego tudo comigo. Não sou doida de desprezar o maior responsável por me tornar a pessoa que sou hoje.

Sigo escrevendo a minha história e sei que a linha estendida à frente é mais curta do que toda a que eu já percorri.

Ciente disso, não me prendo mais a bobagens, ao supérfluo, ao desnecessário. Filtrar também é maturidade.

Ando leve. Carrego comigo somente o que me cabe.

 

Crônica do Dia: Mulheres

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

As mulheres são profissionais exemplares. São mães dedicadas. São esposas maravilhosas. Uma salva de palmas! Clap, clap, clap, clap.

Grrrrrrrrrrrr. Todo ano a mesma ladainha no Dia Internacional da Mulher. Mas tenho que admitir que é mesmo difícil fugir do senso comum, quando a realidade de milhares de mulheres cruzam a mesma rota.

Lá vou eu descrever meio período de trabalho profissional de uma delas.

Às 13h30, com a temperatura na casa dos 38 graus, ela deixa as crianças vestidas de maneira bem fresquinha na escola e, zupt, parte para o trabalho.

b2ap3_thumbnail_malabaresBate o cartão e inicia a rotina. De repente soa, imaginariamente, em seu ouvido, a voz do marido: “O que temos para o jantar?” Pronto, acendeu a luz de alerta. Liga para a Jurema, a empregada. O telefone toca, toca, toca e nada. Jurema está no seu período de descanso, naquela hora estipulada pela nova lei. Então, ela tenta, dali mesmo do escritório, fazer um tour imaginário pela geladeira. Precisa descobrir se há carne, tomates, cebolas, ovos. Em vão. Pega um pedaço de papel e, rapidamente, bola uma lista de supermercado. Ok.

Alguém a avisa que o tempo mudou bruscamente. Olhando pela janela, a situação é assustadora. Venta muito, nuvens escuras se formam anunciando uma tempestade e a temperatura caiu drasticamente.

O que uma mãe pensa nessas horas? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três: nas crianças que devem estar congeladas de frio com aquelas blusinhas de alça. Lógico que não é para tanto, mas mãe sempre tem uma forma exagerada de ver as coisas.

Impossibilitada de ir levar um casaquinho para a prole, ela funde o pensamento tentando encontrar alguém para executar a tarefa. Meia hora depois tudo resolvido.

Enfia a cara no trabalho. Chega uma mensagem: Reunião às 17h30.

Esse é o horário de buscar os filhos na escola. Então, ela esbraveja com seus próprios botões para depois ser tomada por uma vontade doida de bater no chefe. A fúria dura meros segundos, pois a questão relevante é: Quem vai buscar as crianças? Lá se vão alguns minutos na tarefa de encontrar uma boa alma para resolver a pendência. Ok.

Segue para a reunião com as mãos tomadas por pastas contendo gráficos e relatórios. Atravessa corredores com ar sublime e de mulher bem resolvida. Não se deixe enganar. Por dentro, geralmente, costuma bater um coração apertado e cheio de culpa.

Na reunião, tenta se concentrar dividindo espaço com a lista de supermercado, com a dúvida se deu tudo certo na hora de pegar as crianças, com o cardápio para o jantar.

Se você não se identificou com nenhum parágrafo, procure, vasculhe, remexa e, com certeza vai encontrar semelhanças em alguma outra mulher. Tem aos montes por aí.

Para elas, uma salva de palmas: Clap, clap, clap, clap.

Crônica do Dia

kátia 1Ser educado é uma riqueza

Por: Katia Muniz

Foto: site Mensagens10

Foto: site Mensagens10

Visualize a cena: eram dois casais, na praia. Intercalavam a caminhada com algumas paradas para fazer selfies. Os homens tomavam cerveja em latinha. Último gole dado e os recipientes são descartados, na areia, sem a menor culpa ou cerimônia.

Corta.

Praia é um lugar democrático. Sim, eu sei que essa frase é um clichê. Mas, eles também ajudam a compor a vida.

Na areia da praia mesclam-se: estudantes, empresários, ajudantes de pedreiro, advogados, zeladores, professores, dentistas, arquitetos, médicos, desempregados.

Desfrutando do mesmo espaço, o que vai distingui-los um do outro? Pode retirar o seu brinde, se você pensou em educação.

Ainda é a educação, o respeito ao próximo e o bom senso que regem as regras de convívio social, mas nada disso vincula-se ao saldo bancário.

Você pode ter um carro zero, que custe vários dígitos, estacionado à beira-mar, ou pode ter vindo à praia enfrentando um ônibus entupido de gente, mas, se, ao ir embora, não mover um músculo para retirar o lixo que produziu durante o dia, você comprova com essa atitude a sua pobreza existencial. Porque não se trata somente do lixo deixado para trás, mas da total falta de conscientização ambiental e da ignorância, sem falar da exposição do seu próprio atraso sociocultural.

A educação vale para qualquer ambiente.

Ceder lugar no ônibus para uma pessoa idosa, esperar que todos saiam do elevador para você entrar, recolher o seu próprio lixo depois da sessão de cinema, pedir desculpas se esbarrou em alguém, são alguns exemplos. E é sempre bom lembrar: “por favor” e “obrigado” ainda não saíram de moda.

Na praia: som alto, futebolzinho driblando as cadeiras na areia, passeios de jet ski muito próximos aos banhistas, animais de estimação, são somente algumas atitudes que entregam a sua falta de civilidade.

Entender que, não estamos sozinhos no mundo, já é um começo. E se conscientizar que os seus atos podem interferir na vida do próximo, deveria ser um mantra repetido todo o santo dia, ao acordar.

Ricas são as pessoas que esbanjam educação e comportamentos assertivos, as demais são pobres de marré, marré, marré.

Letras Parnanguaras é lançada em Paranaguá

Projeto tem apoio da Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Cultura

IMG_9269No corredor do Palácio do Café, em restaurantes, nos ônibus.

Em todos estes locais, entre outros, as letras parnanguaras vão assinadas por escritores locais.

Trata-se do projeto Letras Parnanguaras, idealizado pelo escritor Paulo Ras, e apoiado pela Fundação de Cultura (Fumcul) da Prefeitura de Paranaguá.

Frases de Kátia Muniz, Maria Eduarda, Camila Fortunato e do próprio Paulo Ras foram selecionadas para os cartazes que estão sendo colocados em várias partes da cidade.

O objetivo é mostrar os talentos e provocar a reflexão por meio das letras, palavras e frases.

“A literatura é mais um segmento que a Fundação Municipal de Cultura promove, com o apoio do prefeito Edison Kersten, para estimular a cultura de Paranaguá”, destacou a presidente da Fumcul, Maria Angélica Lobo Leomil.

Crônica do Dia, com Kátia Muniz

kátia 1Escapes e fugas

Por: Kátia Muniz

“Ninguém segura o rojão da realidade 24 horas por dia”.  Esta frase é da escritora Martha Medeiros.

momentos-satisfatorios-femininos-6É verdade, ninguém segura, por isso precisamos tanto dos nossos escapes.  Que escapes são esses?  Pode ser um futebolzinho no final de tarde, um bate-papo com as amigas, uma caminhada para oxigenar o cérebro, um esporte para liberar a adrenalina. Subir uma montanha, nadar, pescar, assistir a um bom filme, tocar um instrumento, dançar, ficar de papo pro ar. Qualquer coisa que nos dê a sensação de prazer, de reabastecimento, de encontrarmos a energia necessária para aguentar o batente e os percalços do dia a dia. São escapes necessários e que servem para dar um equilíbrio à vida.

Mas, para muitas pessoas, só os escapes leves e cotidianos não tem resolvido. Tem muita gente se aventurando em algo mais radical: a fuga da realidade.

Você foge quando se deixa levar por fantasias, quando se transporta para mundos imaginários, quando cria ilusões. Você foge nos momentos em que precisa tomar decisões, em que se obriga a fazer enfrentamentos, em que a vida exige de você maturidade e responsabilidade.

Reconheço que entro num terreno que não domino: a psicologia. Não sou do ramo, mas arrisco.

Quem quer a parte chata? Quem deseja contas a pagar, problemas a resolver, saúde debilitada, casamentos de fachada, filhos que aprontam e nos desapontam e desilusões amorosas.

Assim, tenho visto e observado fugas, conscientes e outras tantas inconscientes, de gente que anda meio perdida, sem saber direito o que fazer com o pacote de frustrações que a vida traz, e se encarrega de nos entregar sem que a gente assine nenhum bilhete de recebimento. Pronto. Entrega feita. Agora, é com você.

Fugas para buscar momentos de respiro e de alívio. Fugas em que se quer um esconderijo, uma caverna qualquer que nos abrigue e que nos poupe de encarar os fatos que nos assustam, que nos decepcionam, que nos causam incômodo ou alguma dor. Inútil: tudo o que a gente pensou que deixou para trás nos espera ansiosamente bem do lado de fora.

Crônica do Dia. Saia da sua zona de conforto e leia!

katia 3A vida é muito maior do que parece

Por: Katia Muniz

Não todos, claro, mas há uma parte significativa de pessoas que esticou a rede à sombra e deitou-se sobre ela. Desfrutam do que a vida lhes entregou e, se está bom assim, para que mexer.

Nada é mais agradável nessa vida do que a nossa zona de conforto. Nela, costumamos nos adaptar com facilidade, com encaixe, sem muitos sobressaltos, sem grandes projeções futuras. Simplesmente tratamos de carregar os dias, mais ou menos iguais, na direção que o vento sopra e, se está bom assim, para que mexer.

Afinal de contas, mexer em algo que está quieto, pode fazer acordar uma palavra bem temida: mudança.

zonaMudar significa não só levantar da rede, mas se colocar em movimento em prol de algum sonho, anseio ou conquista. E toda mudança provoca burburinho: externo e, principalmente, interno. Porque é dentro de nós que o processo começa a ganhar corpo e forma. Mudar é lidar com o desconhecido, com o medo, com as dúvidas, com as inseguranças e com as incertezas que fazem parte do pacote. Preparados? Nem um pouco. Mas os que resolvem criar a coragem de girar a maçaneta da porta, que apresenta o novo caminho, costumam não se arrepender do ato.

Sei de muitas histórias de superação. De gente que não se contentou com a estrutura ou com o ambiente em que nasceu. Que soube desde cedo que era preciso ter muita dedicação e disciplina para ver o seu sonho realizado. Que entendeu que arriscar faz parte do jogo e que, se nada desse certo na primeira tentativa, pegava-se a experiência adquirida e a vontade de vencer e recomeçava-se a partida. Experiência e vontade costumam ser os dados que nos fazem pular várias casas.

Nem sempre é fácil, pois o ato de mover-se também requer abrir mão de certas coisas em benefício de outras. Às vezes é preciso enfrentar a cidade grande, abrir mão do convívio familiar, negligenciar as horas com os amigos. Alguns vão entender, outros farão cara feia, mas quem te ama vai sempre dizer para você seguir em frente.

“A vida é muito maior do que parece”.

A frase que dá título ao texto foi pinçada de uma linda mensagem que eu recebi de uma leitora. E uma vez catapultada para a coluna do jornal é porque mexeu, significativamente, com essa que vos escreve.

Quando a gente resolve se permitir ao novo e cortar as raízes que nos prendem ao chão, é mais fácil perceber que a vida costuma ser muito maior do que o metro quadrado que nos cerca.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Vai passar

Por: Katia Muniz

De volta aos bancos escolares.

Tudo novo, tudo mágico, tudo grandioso, tudo assustador.

Informações novas, matérias diversificadas, professores-doutores, conteúdo intenso e extenso. É preciso derrotar o monstro que começa a tomar forma e tamanho.

O coração se expande com amigos novos. Dividem agonias, cansaço, lamúrias e algumas histórias de vida, no apertado e cronometrado momento de intervalo.

Cidade grande costuma virar gigante quando quem a percorre tem pouca estatura.

Metrópole cinza, concretada, prédios altos. Pessoas. Muitas pessoas com seu ritmo apressado, firme, envolvidas com seus problemas e suas telas de iphones e smartphones. Arrancar-lhes um sorriso é tarefa árdua. Talvez o frio, por natureza, os tenha empacotado.

Carros, buzinas, vidros fechados, trânsito caótico. Para os pedestres o sinalizador indica o bonequinho vermelho: PARE! Todos os transeuntes automaticamente viram estátuas. Bonequinho verde, passagem liberada. Há um batalhão que atravessa junto. A sensação de estar sendo perseguido é constante. Estar sozinho é um luxo.

Barulho. Poluição sonora e visual. Panfletos entregues por mãos automatizadas oferecem desde curso de informática até os serviços de videntes que prometem fazer você encontrar o tão sonhado e perseguido “amor”.

Fila para comprar uma caixinha de chicletes, para comprar pão, para pegar o elevador, para receber a nova apostila do cursinho. Outra? Mais uma? Mais matéria?

Come-se qualquer coisa, bebe-se muita água e café. Ansiedade e estresse descontados na comida elevam o ponteiro da balança.

A serra que liga uma cidade a outra é linda! Não há dúvidas. Mas olhos cansados não enxergam mais a beleza, e a rotina exaustiva suplica a necessidade de fechar as pálpebras enquanto se faz o trajeto.

Horas infinitas dentro da condução. Certa noite, acidente na estrada com mortes anunciadas. Madrugada gelada, garoa fina. Pista liberada. São três horas da manhã quando fechadura e chave se reencontram para o giro magnânimo.

Desaba-se na cama. Não há sonho que se firme em poucas horas de sono. Não é possível atingi-lo na sua plenitude. Sonho com direito a começo, meio e fim é algo perdido no sono não repousante.

Alguém diz: “Vai passar. Ainda sentirá saudades dessa época”.

Enquanto não passa sente saudades da paz, do sossego e do silêncio que tão bem lhe cabem e a confortam.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Corações ocupados

Por: Katia Muniz

Fossem os dois livres, viveriam o amor na sua plenitude, no seu deslumbramento, na sua intensa vontade de se mostrar ao mundo.

Mas eis que o amor nem sempre respeita corações ocupados.

Há uma infinidade de pessoas com corações ocupados, o que não significa, em hipótese alguma, que estejam preenchidos.

Existem trincas nos corações ocupados. Desfilam por aí com suas lacunas, seus sulcos, suas fendas, suas brechas.

Um coração com fissuras reconhece outro.

E lá vem o amor bater à porta. Tocar a campainha. Clamar por entrar.

Lá vem o amor que não reconhece as regras de etiqueta. Que não espera convite. Que é espaçoso e folgado.

Lá vem o amor carregado de paixão, de desejo, de fantasias, de sonhos.

Lá vem ele para sacudir a vida monótona, sufocada em afazeres e responsabilidades.

Lá vem ele apresentando um outro mundo, uma outra vida, uma palheta de possibilidades.

Lá vem ele desnorteando a racionalidade, batendo palmas para os impulsos, festejando o brilho nos olhos.

Lá vem ele para fazer você levitar, ter taquicardia, transportar você para um espaço que reconforta, que traz o colo que há tempos era procurado.

Mas coração e razão são inimigos mortais.

Entram no ringue, disputam, batem, promovem dores, cicatrizes, machucados.

O juiz avisa que, dessa vez, a razão venceu.

E lá se vão os dois derrubando lágrimas no escuro, agonizando nas noites insones.

A razão puxa para a realidade, que é o palco dos corações mutilados.

Seguem. Cada um para um lado, sem poder soltar o grito interno que reverbera e habita os inúmeros corações ocupados.