Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Eu Maior

Por: Katia Muniz

Muito tempo atrás, recebi uma mensagem que dizia: “não deixe de ver ‘Eu Maior’. Quem sabe não vira assunto para a coluna”.

Agradeci a sugestão e anotei na minha agenda. Mas o tempo é um ingrato, sempre com essa mania de escorregar entre os dedos.

Só agora fui me deleitar com “Eu Maior”.

eumaiorE então, especificamente, fala sobre o quê? Você deve estar se perguntando.

Trata-se de um documentário reunindo um time de entrevistados com perfis bem variados. Entre eles: Mário Sérgio Cortella, Carlos Burle, Letícia Sabatella, Waldemar Niclevicz, Marcelo Yuka, Monja Coen, Flávio Gikovate e outros tantos. Acesse: www.eumaior.com.br para saber mais sobre esse projeto maravilhoso.

Os temas abordados são autoconhecimento e felicidade.

Cada entrevistado dá o seu ponto de vista sobre os assuntos, levando míseros 4 a 6 minutos para isso. Tão pouco tempo para uma pauta tão interessante?

Justifica-se: o documentário conta com 30 entrevistados.

Há um recheio lindo nesse projeto. Ninguém sai ileso depois de assistir a ele. É convite à reflexão. É convite à introspecção. É convite ao silêncio diante do imenso barulho que nos cerca.

Mas, ao ouvir tantas frases, as que vieram de Marina Silva me paralisaram. Quando, num determinado momento, foi questionada sobre uma qualidade a ser cultivada, ela disse: “uma qualidade que a gente deve cultivar, não é que eu a tenha, mas que eu almejo tê-la, é saber-me frágil, saber-me incompleta, saber-me faltosa. Dependente desse outro que me sustenta e que me completa, que me acalma e me inquieta.”

Vou pegar o gancho: sabermos em erros, sabermos em falha, sabermos com defeitos, sabermos humildes, sabermos em gratidão, sabermos amar ao próximo, sabermos gentis, sabermos em educação, sabermos com boas ações, sabermos pedir, sabermos agradecer, sabermos seres em constante aprendizado.

Sempre vi com bons olhos quem demonstra e expõe, sem medo, suas fragilidades e defeitos. Quem faz sua parte sem muita algazarra e estrondo. Gente que chama atenção não pela exposição excessiva, mas justamente por manter-se firme, num ritmo constante, sem tantos decibéis que ensurdecem. Gente que entendeu que MAIS nem sempre reflete bens materiais e uma conta bancária polpuda. Gente que sabe que MAIORES mesmos, num patamar pleno e elevado, nunca seremos.

Crônica do Dia- O amor pede afinidades

kátia-muniz2O amor pede afinidades

Por: Kátia Muniz       

“Os opostos se atraem”.

love amorNão sei quem disse essa frase que se alastra feito erva daninha, mas eu não consigo achar nenhuma graça e nenhuma lógica nela.

Nunca me senti atraída por gente que é totalmente oposta a mim.

Uma amiga me contou que bateu o olho em um determinado rapaz e gostou. Era um bom sinal mas, conforme a conversa avançava, as diferenças entre os dois causavam um curto-circuito. Ele gostava de praia, ela de campo. Ele curtia pagode, ela era fã do Coldplay. Ele queria assistir aos inúmeros telejornais, ela queria ir ao cinema. Ele dizia “a gente vamos” e ela foi mesmo, mas sozinha, porque não estava nem um pouco a fim de passar o resto dos seus dias com alguém que zerava, por completo, as possibilidades de um relacionamento tranquilo e duradouro.

O amor pede afinidades.

Encontrar alguém com quem não se precisa ter o desgaste emocional para definir um simples lugar para jantar é, no mínimo, glorioso.

Não, não bate tudo 100%. Em alguma coisa haverá divergência. Mas que esse momento seja enfrentado como um teste, como um aprendizado, como um ensinamento, uma lição de casa. Porque tudo igual, tudo do mesmo jeito também cansa e dá sono zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Há de se ter algumas pitadas de diferenças para incrementar a receita do relacionamento. É perfeitamente compreensível que você só coma salada enquanto ele aprecie uma boa massa. Isso não é, nem de longe, motivo para se fazer as malas e bater a porta. The end.

Diferenças nos encaminham para o amadurecimento. São necessárias e benéficas para o exercício das concessões em favor da harmonia do casal.

O amor não pede competição. Não é arena em que um quer nocautear o outro. Em que um se vê vencido por ter torturado o seu par a tal ponto que ele ceda a seus caprichos e infantilidades.

Amor pede um cardápio de compreensões.

Os opostos se atraem na Física. Funcionam com ímãs de geladeira, já com as pessoas…

Para dividir a vida e os lençóis, eu fui atrás de alguém bem parecido comigo.

Alguém que me trouxesse paz e tranquilidade. Alguém que sentisse a mesma vontade de transformar os dias em algo leve, sem excessos de neuras, de ciúmes e desconfianças. Alguém que soubesse respeitar o meu espaço e a minha vontade de abraçar o silêncio. Encontrei.

Estamos aqui, brindando 20 anos juntinhos. Enquanto ele ouve AC/DC, eu ouço Enya.

Crônica do Dia: O pai e a mochila

kátia-muniz2Por: Kátia Muniz

Eu aguardava, dentro do carro, meu filho sair do colégio, quando vi um pai segurando em uma de suas mãos a mão do filhinho e, na outra, a mochila de rodinhas.

Continuei acompanhando a cena. Ele deixou a mochila na calçada, colocou a criança na cadeirinha do carro, prendeu-a com o cinto e depositou um beijinho carinhoso no rosto do menino.

Nesse momento, meu celular tocou e abandonei por uns minutos a encantadora cena entre pai e filho.

Quando voltei os olhos o carro já não estava mais lá, mas a mochila permaneceu na calçada. O pai havia esquecido o objeto.

Recolhi a mochila e a levei para a secretaria da escola.

Fiquei imaginando o que aquele pai deve ter escutado da mãe do garotinho quando chegou em casa. Aliás, deve ouvir até hoje, pois toda mulher é mestra em desenterrar o passado.

Essa história já tem uns quatro anos, mas ainda deve ser assunto em alguns almoços daquela família.

A abstração do homem é a neurose da mulher. No fundo, no fundo invejamos essa capacidade que eles têm de se concentrar somente no que interessa. De focar o objetivo e se desligar do restante.

Já as mulheres, coitadas, todas doidas absorvendo tudo a sua volta, inclusive o que eles esquecem por aí.

Eu não presenciei o que a mãe do garotinho disse ao pai, pelo fato dele ter esquecido a mochila. Talvez tenha feito um escarcéu, ou se voltou há pouco tempo de um retiro budista, pode ainda se encontrar zen e achando tudo uma maravilha.

Mas eu presenciei o trajeto deles até chegar ao carro. A mão firme do pai segurando a mãozinha do filho. O cuidado em prendê-lo à cadeirinha. E o ápice: o beijo do pai, no garotinho.

A mochila era coadjuvante nessa história. Tão sem importância que foi esquecida. O bem precioso era a criança, era o filho.

Se fosse a mãe buscando a criança…

Deixa para lá. Sobre as mães comento em maio. Agora, estamos em agosto, prestes a celebrar o Dia dos Pais.

Eles que andam surpreendendo, a cada dia mais, com atitudes positivas na criação da prole.

Ah, papais! Continuem a dar atenção, amor, beijo e toda demonstração de afeto e carinho, explicitamente. Seus filhos agradecem e o mundo também.

Crônica do Dia- Paixões Proibidas

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

No mês de junho, escrevi três crônicas falando sobre o tema: amor.

“Acontece”, título do meu último texto e que foi publicado na semana passada, teve uma excelente aceitação e também provocou burburinho. Recebi inúmeras mensagens e alguns pedidos em tom de sussurro: “Fale das paixões proibidas”.

Sabemos: há as paixões reveladas e as que são carregadas em segredo.

No começo, a aventura atrai e brincar com a possibilidade do flagra vira uma excitação.

O sexo reina absoluto e torna-se desafiador manter o relacionamento no anonimato.

Mas o prazo de validade costuma ser curto. Logo o casal cansa desse recolhimento, dos gemidos abafados, das janelas sempre fechadas, das cortinas cerradas, da porta trancada à chave.

Começa a virar um incômodo o celular desligado, os encontros furtivos, a logística cheia de mentiras à mostra e verdades encobertas.

O que era excitante no início torna-se um fardo, um peso, uma sobrecarga.

Os dois sentem-se presos, acorrentados, confinados, trancafiados.

A paixão infla, pede mais espaço. Não cabe mais em quatro paredes. Almeja o lado de fora. Quer mostrar-se ao público. Requer plateia. Busca exposição.

Deseja ir ao cinema, ao teatro, ao barzinho. Quer se exibir. Quer vir à tona. Quer andar de mãos dadas.

Uma hora, toda paixão proibida pede ar, ventilação, oxigênio. Não se sustenta somente pelo sexo. Precisa de mais.

Quer ser vivida na sua plenitude. Quer ser assunto em rodas de conversa. Quer fazer parte do todo.

Pode até tardar, mas não falha o desejo comum que toda relação anseia: a validação e o reconhecimento público dessa união.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Acontece

Por: Katia Muniz

Acontece com mais frequência do que a nossa mente possa imaginar.

Acompanhe: você está aí levando a sua vida normalmente, dentro de uma rotina previsível, até que cruza o olhar com alguém.

Pronto. Sua vida pacata acaba de ganhar novos ares.

Você não sabe explicar o que aconteceu. Por que raios aquela pessoa com quem você trocou meia dúzia de palavras, anda, insistentemente, ocupando um espaço especial nos seus pensamentos.

Nunca aconteceu com quem o atende todos os dias na padaria. Nunca aconteceu no ambiente de trabalho, com quem você divide a maior parte do seu tempo. Nunca.

Mas até o nunca tem seus dias contados. Até o nunca cansa dele mesmo. Até o nunca se fragiliza, se quebra, se rompe.

E veja só, aí está você sem saber o que fazer com esse curto circuito interno. Com esses fios que se desconectaram. Com essa pane.

Acontece. Sem hora prevista, nem dia marcado.

Você pode ter 15, 20, 30, 45, 58, 72 anos. Você pode estar livre, leve e solto ou pode estar num relacionamento de anos.

Basta somente uma coisa: estar vivo.

Uma vez vivo, você sente, enxerga, ouve, deseja, pensa, fantasia.

Uma vez vivo, você está sujeito a todo tipo de emoção.

Acontece. Às vezes aparece alguém que faz um click. Que desperta algo diferente. Que faz você botar um sorriso meio bobo no rosto. Que desconcentra. Que provoca sensações que permaneciam repousadas.

Não há respostas. Não há explicações.

Por que aconteceu com você?

Não é só com você. Acontece no mundo todo.

Acontece aqui, ali, acolá.

Uns dão vazão ao sentimento despertado. Outros sufocam, abafam, prendem, reprimem, trancafiam a sete chaves.

Acontece porque você é humano e carrega um coração que pulsa dentro do peito.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Cadeados do Amor

Por: Katia Muniz

1389274981-new-call-to-clear-pont-des-arts-love-locks-in-paris_3639292Paris, Pont des Arts.

Durante muito tempo, casais do mundo todo fixavam um cadeado nos gradis da ponte como prova de amor eterno.

Resultado: o peso dos inúmeros cadeados começou a comprometer a estrutura. A prefeitura interveio e promoveu a retirada a fim de devolver a segurança aos transeuntes.

Paris, considerada uma cidade romântica, perde um símbolo do amor.

Mesmo que em silêncio, as pessoas ainda sonham com um grande amor. Aquele capaz de dar um novo sentido à vida. Aquele que provoca um novo olhar. Aquele que faz brotar um sorriso no rosto. Aquele que faz levitar.

Mas poucos se dispõem a investir em tudo que um amor solicita.

Nos dias atuais, não há muita paciência para as negociações. Discutir a relação? Pra quê. Ceder? Nem pensar. E fazer as malas nunca foi tão fácil.

Os cadeados da Pont des Arts eram uma simbologia, uma promessa de casal. Um desejo que o sentimento fosse adiante. Uma aposta do presente, no futuro.

Os cadeados eram um “Eu te amo” metalizados. Eram votos de amor eterno. Era um jeito de prender o casal e desaparecer com a chave.

Retirá-los foi uma interferência no amor alheio, uma invasão, uma intromissão, uma ruptura do desejo acordado em par.

Não sabemos se os pares que eternizaram o amor na ponte ainda estão juntos. Mas, um dia aclamaram por estar. Um dia celebraram o que os unia. Um dia sentiram a vontade arrebatadora de permanecerem juntos. Um dia sonharam com o futuro. Um dia os dois eram um só.

Mas, quem diria: o amor pesou, justamente, em Paris.

Zzzzzzzzzzzzzzzz- Crônica do Dia

kátia-muniz2Por: Katia Muniz                                                                        katiacronicas@gmail.com.br

Cada pessoa tem um ritmo nas horas de sono, que consegue pôr em prática quando as responsabilidades e as obrigações não batem à porta.

Se você é notívago, ou seja, gosta de dormir tarde e, por consequência disso, acordar tarde, coitado!

A padronização no mundo das empresas pede que às 8h da manhã você esteja a postos. Isto significa que, dependendo da cidade onde mora e do meio de transporte que utiliza, você tenha que se pôr em pé com duas, três horas de antecedência.

Lembrando que para muitas pessoas se pôr em pé, não é o mesmo que acordar.

Algumas balbuciam um bom-dia pouco audível enquanto se arrastam.

O cérebro automatizado fornece os comandos. Banheiro é aqui. Café da manhã. Escolha uma roupa, escolha uma roupa…, apresse-se, pois a hora corre.

Lá vai você dirigindo o seu carro. Executa os movimentos no piloto automático que o carro, infelizmente, não possui. Vira à direita, vira à esquerda. É um perigo à solta. No trânsito, ninguém percebe suas pálpebras pesadas, suas olheiras acinzentadas, seu mau humor, seu sono brutalmente interrompido.

Durante a manhã, fala o mínimo possível. Torce para que não tenha que tomar nenhuma decisão. Morre de medo de se comprometer com algo que, ao acordar, não possa cumprir.

Serviços executáveis em quinze minutos levam uma hora. Você disfarça o indisfarçável. Tenta, sem sucesso, pôr para funcionar o seu corpo, que implora uma cama.

Sempre admirou os que estão às 6h da matina praticando exercícios físicos; os pedreiros que chegam às obras, às 7 horas, pontualmente; os professores que se põem a ensinar para os alunos que bocejam.

Almoça, faz a sesta, espreguiça-se, lava o rosto. Coloca, enfim, um sorriso verdadeiro no rosto. Fala em tom firme e anda com passos certeiros. Finalmente acordou.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Amar é…

Por: Katia Muniz                                                                          katiacronicas@gmail.com

Dizer que ama é fácil, o difícil é ter atitudes que comprovem esse amor.

Muitas pessoas não gostam de ficar dizendo “eu te amo” a todo momento, mas vejam só quanto empenho: agradam, fazem carinho, se fazem presentes, são compreensivas, cuidam, zelam, mantêm-se atentas, enxergam o outro, valorizam, admiram, apreciam, gostam, sentem falta, reconhecem, estimam.images

Se você pensa que estou falando de relacionamento de casal, errou feio. O relacionamento de que vou tratar aqui é do cidadão com sua cidade.

Amar a sua cidade é também zelar por ela. Se ela o acolhe como filho, não seja ingrato, devolva com atitudes positivas e de agradecimento àquela que fornece o ganha-pão de cada dia.

Quem ama sua cidade não sai na calada da noite para despejar lixo próprio em terrenos alheios. Não descarta sofás, geladeiras, gavetas, televisores em plena via pública. Não joga lixo na rua, não quebra e nem destrói o que é do coletivo.

Feliz da cidade em que moram pessoas que assumem a paternidade de seus atos. Que não ficam jogando responsabilidades que lhes cabem em colo de terceiros. Assumirmos a condição de cidadãos é o primeiro ato de amor que entregamos ao nosso município.

Cidadãos são todos aqueles que aqui moram, eu disse TODOS, portanto representantes eleitos pelo povo e a população em geral deveriam cuidar e zelar não só pelo metro quadrado que, de direito, lhe pertence, mas estender esse mesmo cuidado além do muro que o cerca. Atitude que configura, de forma clara, a educação e o respeito ao próximo.

É, no mínimo, desolador ver o patrimônio histórico abandonado, casarios sem conservação, Estação Ferroviária sem telhado, mato em crescimento fermentado, lixo acumulado em qualquer esquina.

Tapumes tentam esconder não só a degradação de construções importantes e históricas, mas a vergonha daqueles que poderiam ter feito mais em prol do coletivo e não fizeram.

Nenhum cartão postal é capaz de resistir, mesmo a natureza sendo privilegiada por essas paragens, a tanto descaso e descuido. E é fato que o verbo “conservar” é pouco conjugado por aqui.

Alguém falou em turismo?

Talvez seja prudente ressaltar que, para se receber bem, faz-se necessário arrumar, limpar e organizar a casa.

Assim como pessoas, cidades também adoecem. Não importa a idade que tenham.

Amar também é reverter o diagnóstico.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Nas alturas

 

Por: Katia Muniz                                                                                 katiacronicas@gmail.com

 

Menos de um mês, depois da queda do avião da Germanwings, na França, entrei num voo. A viagem era curta, levaria apenas uma hora para chegar ao destino.

 

Check in feito, tempo bom, tudo tranquilo.

 

Decolamos. Avião lotado. Serviço de bordo sendo realizado.

 

Aparentemente, todos demonstravam tranquilidade, até o exato momento em que, o piloto cruza o corredor do avião em direção ao banheiro.

 

Os passageiros que estavam posicionados na janela esticavam o pescoço por cima das poltronas, enquanto os que estavam sentados nas poltronas do corredor inclinavam a cabeça para o lado. Todos os olhos voltados para a mesma direção: a porta da cabine.

 

Quem sobrou dentro daquela cabine? O copiloto.

 

Infelizmente, o cérebro buscava na memória o acontecimento trágico da França. Momentos de tensão, minutos congelados, tempo paralisado e sorrisos apreensivos tentavam disfarçar o desconforto.

Sabemos que acidentes de avião são menos frequentes que os provocados em estradas. Considerando as condições precárias das rodovias brasileiras, a opção aérea além de encurtar o tempo de distância até o destino, nos oferece a possibilidade de uma maior segurança.

A repercussão que causa uma queda de avião é gigantesca. O fato de envolver muitas pessoas ao mesmo tempo numa tragédia faz com que, momentaneamente, a gente venha a reconsiderar este tipo de transporte, mas se formos calcular os acidentes que ocorrem diariamente, somente em solo brasileiro, saberemos que o avião ainda é uma forma segura de se viajar.

Só tive medo de voar na primeira vez que entrei numa aeronave. A novidade, a ansiedade, a expectativa e um misto de emoções tomaram conta de mim.  Em todas as outras vezes, desconectei. Não há muito o que se fazer em caso de algum problema.

Confesso que eu também segui o balé coreografado das cabeças que acompanhavam atentas a volta do piloto à cabine. Nunca antes na história da aviação, uma ida ao banheiro, por parte do piloto, foi tão observada e cronometrada.

Andreas Lubitz, o copiloto que derrubou o avião, na França, queria ficar conhecido no mundo todo. Conseguiu. Mas para isso, levou um monte de vidas inocentes, dentro da sua insanidade.

No voo, que eu estava, o avião pousou tranquilamente no seu destino. Que eu saiba, nem o piloto, nem o copiloto viraram capa de revista por terem cumprido sua tarefa, sua missão.

Nos resta agradecer, mesmo que no silêncio interno de cada um, por alcançarmos o solo e nos acostumarmos que pilotos também vão ao banheiro.

Crônica da Semana

kátia-muniz2Birdman

Por: Katia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

Birdman é o típico filme que divide as opiniões em três categorias: há os que amam, os que odeiam e os que precisam assistir a ele mais de uma vez para fazer uma análise mais apurada e, assim, formar uma opinião. Mas, nos três casos, é possível chegar a uma unanimidade: o filme é, no mínimo, intrigante.

A película conta a história de um ator que fez muito sucesso interpretando um homem-pássaro, um super-herói. Porém, na sequência da franquia, desiste de tudo e cai no esquecimento, ou seja, perde os holofotes. Vinte anos depois, decide voltar à ativa, na pele de outro personagem, atuando e dirigindo uma peça na Broadway.

O ator é Michael Keaton em uma atuação primorosa e elogiável.

As câmeras fazem um passeio interno pelas instalações de um teatro, encontrando os atores ora despidos de seus papéis, eles por eles mesmos, ora interpretando e ensaiando, enquanto um solo de bateria pulsa com veemência.

O filme disseca comportamentos do meio artístico. Fala sobre egos e vaidades que acometem aqueles que dão vida a personagens e que precisam a todo custo manter o seu espaço.

Ok. Corta para a vida real.

Você há de convir comigo que não precisamos estar em cartaz na Broadway para lidarmos com egos e vaidades. Um passeio interno, uma visita dentro de nós mesmos pode deixar o roteiro de Birdman no chinelo.

 

Não são todos que gostam de fazer essa introspecção e escutar o que nossos botões têm a nos dizer, mas deveríamos.

Somos mestres em apontar defeitinhos alheios, enquanto nós ficamos livres de qualquer suspeita.

Em várias áreas profissionais, é moleza encontrar gente que quer chamar a atenção, que deseja o lugar do outro, que promove alianças com pessoas influentes, na esperança, talvez, de que essas possam lhe garantir algum retorno, seja financeiro, seja de destaque profissional.

Vivemos em uma era em que é preciso aparecer, mostrar-se ao mundo. As redes sociais estão aí para dar uma forcinha, para expor todos os nossos passos como em um diário. O lado bom da vida sobressai e tratamos de esconder o que não dá ibope.

Arquitetamos, planejamos, escolhemos o nosso melhor ângulo. O que vai para consumo externo é só uma versão melhorada de nós mesmos. O que realmente somos se revela nos bastidores.