Crônica do Dia

kátia 1Ser educado é uma riqueza

Por: Katia Muniz

Foto: site Mensagens10

Foto: site Mensagens10

Visualize a cena: eram dois casais, na praia. Intercalavam a caminhada com algumas paradas para fazer selfies. Os homens tomavam cerveja em latinha. Último gole dado e os recipientes são descartados, na areia, sem a menor culpa ou cerimônia.

Corta.

Praia é um lugar democrático. Sim, eu sei que essa frase é um clichê. Mas, eles também ajudam a compor a vida.

Na areia da praia mesclam-se: estudantes, empresários, ajudantes de pedreiro, advogados, zeladores, professores, dentistas, arquitetos, médicos, desempregados.

Desfrutando do mesmo espaço, o que vai distingui-los um do outro? Pode retirar o seu brinde, se você pensou em educação.

Ainda é a educação, o respeito ao próximo e o bom senso que regem as regras de convívio social, mas nada disso vincula-se ao saldo bancário.

Você pode ter um carro zero, que custe vários dígitos, estacionado à beira-mar, ou pode ter vindo à praia enfrentando um ônibus entupido de gente, mas, se, ao ir embora, não mover um músculo para retirar o lixo que produziu durante o dia, você comprova com essa atitude a sua pobreza existencial. Porque não se trata somente do lixo deixado para trás, mas da total falta de conscientização ambiental e da ignorância, sem falar da exposição do seu próprio atraso sociocultural.

A educação vale para qualquer ambiente.

Ceder lugar no ônibus para uma pessoa idosa, esperar que todos saiam do elevador para você entrar, recolher o seu próprio lixo depois da sessão de cinema, pedir desculpas se esbarrou em alguém, são alguns exemplos. E é sempre bom lembrar: “por favor” e “obrigado” ainda não saíram de moda.

Na praia: som alto, futebolzinho driblando as cadeiras na areia, passeios de jet ski muito próximos aos banhistas, animais de estimação, são somente algumas atitudes que entregam a sua falta de civilidade.

Entender que, não estamos sozinhos no mundo, já é um começo. E se conscientizar que os seus atos podem interferir na vida do próximo, deveria ser um mantra repetido todo o santo dia, ao acordar.

Ricas são as pessoas que esbanjam educação e comportamentos assertivos, as demais são pobres de marré, marré, marré.

Crônica do Dia, com Kátia Muniz

kátia 1Escapes e fugas

Por: Kátia Muniz

“Ninguém segura o rojão da realidade 24 horas por dia”.  Esta frase é da escritora Martha Medeiros.

momentos-satisfatorios-femininos-6É verdade, ninguém segura, por isso precisamos tanto dos nossos escapes.  Que escapes são esses?  Pode ser um futebolzinho no final de tarde, um bate-papo com as amigas, uma caminhada para oxigenar o cérebro, um esporte para liberar a adrenalina. Subir uma montanha, nadar, pescar, assistir a um bom filme, tocar um instrumento, dançar, ficar de papo pro ar. Qualquer coisa que nos dê a sensação de prazer, de reabastecimento, de encontrarmos a energia necessária para aguentar o batente e os percalços do dia a dia. São escapes necessários e que servem para dar um equilíbrio à vida.

Mas, para muitas pessoas, só os escapes leves e cotidianos não tem resolvido. Tem muita gente se aventurando em algo mais radical: a fuga da realidade.

Você foge quando se deixa levar por fantasias, quando se transporta para mundos imaginários, quando cria ilusões. Você foge nos momentos em que precisa tomar decisões, em que se obriga a fazer enfrentamentos, em que a vida exige de você maturidade e responsabilidade.

Reconheço que entro num terreno que não domino: a psicologia. Não sou do ramo, mas arrisco.

Quem quer a parte chata? Quem deseja contas a pagar, problemas a resolver, saúde debilitada, casamentos de fachada, filhos que aprontam e nos desapontam e desilusões amorosas.

Assim, tenho visto e observado fugas, conscientes e outras tantas inconscientes, de gente que anda meio perdida, sem saber direito o que fazer com o pacote de frustrações que a vida traz, e se encarrega de nos entregar sem que a gente assine nenhum bilhete de recebimento. Pronto. Entrega feita. Agora, é com você.

Fugas para buscar momentos de respiro e de alívio. Fugas em que se quer um esconderijo, uma caverna qualquer que nos abrigue e que nos poupe de encarar os fatos que nos assustam, que nos decepcionam, que nos causam incômodo ou alguma dor. Inútil: tudo o que a gente pensou que deixou para trás nos espera ansiosamente bem do lado de fora.

Crônica do Dia. Saia da sua zona de conforto e leia!

katia 3A vida é muito maior do que parece

Por: Katia Muniz

Não todos, claro, mas há uma parte significativa de pessoas que esticou a rede à sombra e deitou-se sobre ela. Desfrutam do que a vida lhes entregou e, se está bom assim, para que mexer.

Nada é mais agradável nessa vida do que a nossa zona de conforto. Nela, costumamos nos adaptar com facilidade, com encaixe, sem muitos sobressaltos, sem grandes projeções futuras. Simplesmente tratamos de carregar os dias, mais ou menos iguais, na direção que o vento sopra e, se está bom assim, para que mexer.

Afinal de contas, mexer em algo que está quieto, pode fazer acordar uma palavra bem temida: mudança.

zonaMudar significa não só levantar da rede, mas se colocar em movimento em prol de algum sonho, anseio ou conquista. E toda mudança provoca burburinho: externo e, principalmente, interno. Porque é dentro de nós que o processo começa a ganhar corpo e forma. Mudar é lidar com o desconhecido, com o medo, com as dúvidas, com as inseguranças e com as incertezas que fazem parte do pacote. Preparados? Nem um pouco. Mas os que resolvem criar a coragem de girar a maçaneta da porta, que apresenta o novo caminho, costumam não se arrepender do ato.

Sei de muitas histórias de superação. De gente que não se contentou com a estrutura ou com o ambiente em que nasceu. Que soube desde cedo que era preciso ter muita dedicação e disciplina para ver o seu sonho realizado. Que entendeu que arriscar faz parte do jogo e que, se nada desse certo na primeira tentativa, pegava-se a experiência adquirida e a vontade de vencer e recomeçava-se a partida. Experiência e vontade costumam ser os dados que nos fazem pular várias casas.

Nem sempre é fácil, pois o ato de mover-se também requer abrir mão de certas coisas em benefício de outras. Às vezes é preciso enfrentar a cidade grande, abrir mão do convívio familiar, negligenciar as horas com os amigos. Alguns vão entender, outros farão cara feia, mas quem te ama vai sempre dizer para você seguir em frente.

“A vida é muito maior do que parece”.

A frase que dá título ao texto foi pinçada de uma linda mensagem que eu recebi de uma leitora. E uma vez catapultada para a coluna do jornal é porque mexeu, significativamente, com essa que vos escreve.

Quando a gente resolve se permitir ao novo e cortar as raízes que nos prendem ao chão, é mais fácil perceber que a vida costuma ser muito maior do que o metro quadrado que nos cerca.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Vai passar

Por: Katia Muniz

De volta aos bancos escolares.

Tudo novo, tudo mágico, tudo grandioso, tudo assustador.

Informações novas, matérias diversificadas, professores-doutores, conteúdo intenso e extenso. É preciso derrotar o monstro que começa a tomar forma e tamanho.

O coração se expande com amigos novos. Dividem agonias, cansaço, lamúrias e algumas histórias de vida, no apertado e cronometrado momento de intervalo.

Cidade grande costuma virar gigante quando quem a percorre tem pouca estatura.

Metrópole cinza, concretada, prédios altos. Pessoas. Muitas pessoas com seu ritmo apressado, firme, envolvidas com seus problemas e suas telas de iphones e smartphones. Arrancar-lhes um sorriso é tarefa árdua. Talvez o frio, por natureza, os tenha empacotado.

Carros, buzinas, vidros fechados, trânsito caótico. Para os pedestres o sinalizador indica o bonequinho vermelho: PARE! Todos os transeuntes automaticamente viram estátuas. Bonequinho verde, passagem liberada. Há um batalhão que atravessa junto. A sensação de estar sendo perseguido é constante. Estar sozinho é um luxo.

Barulho. Poluição sonora e visual. Panfletos entregues por mãos automatizadas oferecem desde curso de informática até os serviços de videntes que prometem fazer você encontrar o tão sonhado e perseguido “amor”.

Fila para comprar uma caixinha de chicletes, para comprar pão, para pegar o elevador, para receber a nova apostila do cursinho. Outra? Mais uma? Mais matéria?

Come-se qualquer coisa, bebe-se muita água e café. Ansiedade e estresse descontados na comida elevam o ponteiro da balança.

A serra que liga uma cidade a outra é linda! Não há dúvidas. Mas olhos cansados não enxergam mais a beleza, e a rotina exaustiva suplica a necessidade de fechar as pálpebras enquanto se faz o trajeto.

Horas infinitas dentro da condução. Certa noite, acidente na estrada com mortes anunciadas. Madrugada gelada, garoa fina. Pista liberada. São três horas da manhã quando fechadura e chave se reencontram para o giro magnânimo.

Desaba-se na cama. Não há sonho que se firme em poucas horas de sono. Não é possível atingi-lo na sua plenitude. Sonho com direito a começo, meio e fim é algo perdido no sono não repousante.

Alguém diz: “Vai passar. Ainda sentirá saudades dessa época”.

Enquanto não passa sente saudades da paz, do sossego e do silêncio que tão bem lhe cabem e a confortam.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Corações ocupados

Por: Katia Muniz

Fossem os dois livres, viveriam o amor na sua plenitude, no seu deslumbramento, na sua intensa vontade de se mostrar ao mundo.

Mas eis que o amor nem sempre respeita corações ocupados.

Há uma infinidade de pessoas com corações ocupados, o que não significa, em hipótese alguma, que estejam preenchidos.

Existem trincas nos corações ocupados. Desfilam por aí com suas lacunas, seus sulcos, suas fendas, suas brechas.

Um coração com fissuras reconhece outro.

E lá vem o amor bater à porta. Tocar a campainha. Clamar por entrar.

Lá vem o amor que não reconhece as regras de etiqueta. Que não espera convite. Que é espaçoso e folgado.

Lá vem o amor carregado de paixão, de desejo, de fantasias, de sonhos.

Lá vem ele para sacudir a vida monótona, sufocada em afazeres e responsabilidades.

Lá vem ele apresentando um outro mundo, uma outra vida, uma palheta de possibilidades.

Lá vem ele desnorteando a racionalidade, batendo palmas para os impulsos, festejando o brilho nos olhos.

Lá vem ele para fazer você levitar, ter taquicardia, transportar você para um espaço que reconforta, que traz o colo que há tempos era procurado.

Mas coração e razão são inimigos mortais.

Entram no ringue, disputam, batem, promovem dores, cicatrizes, machucados.

O juiz avisa que, dessa vez, a razão venceu.

E lá se vão os dois derrubando lágrimas no escuro, agonizando nas noites insones.

A razão puxa para a realidade, que é o palco dos corações mutilados.

Seguem. Cada um para um lado, sem poder soltar o grito interno que reverbera e habita os inúmeros corações ocupados.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Que horas ela volta?

Por: Katia Muniz

Se você ainda não ouviu falar de Anna Muylaert eu informo: ela assina a direção do filme “Que horas ela volta?”.

O longa já ganhou prêmios nos festivais de Sundance, nos Estados Unidos, de Berlim, na Alemanha e disputa uma indicação ao Oscar.

A película trata da relação patrão/empregada.

Torceu o nariz? Destorça.

Se você me acompanha aqui, na coluna, sabe que eu arrasto um caminhão por temas do cotidiano e, nesse quesito, o filme bebeu da fonte.

Regina Casé interpreta Val, a empregada. Sua atuação é IM-PE-CÁ-VEL! Assim mesmo, em maiúsculas e com separação silábica, reforçando o tom pausado. A atriz conseguiu engavetar o sotaque carregado de “s” e fez surgir um outro: o nordestino. Na medida, sem nenhum exagero. Nem de longe lembra a apresentadora dominical do Programa Isssssssquenta.

Não há paisagens exuberantes no filme. Mas o retrato fiel de uma São Paulo concretada. Muitos prédios vistos pelos olhos da personagem, enquanto se desloca nos  vários ônibus que utiliza para ir e vir. Está lá também a obediência cega aos patrões, a qual lhe garante o emprego e o quartinho nos fundos da casa.

Uma cena? A que a empregada serve os convidados numa festa sem que nenhum deles a encare. Ela é invisível diante deles.

Podemos acusar o golpe?

Será que costumamos cumprimentar o gari ou a servente que trabalha dentro dos banheiros nos shoppings ou eles também são invisíveis para nós?

O filme destaca e reforça a diferença social que delimita o “cada um no seu quadrado”.

Há cenas comoventes, cenas com humor, cenas do dia a dia e um pedido: um olhar mais atento e humanizado para a Maria, a Raimunda, a Janicleide ou qualquer outro nome que conste no RG daquelas que cuidam da nossa casa e, muitas vezes dos nossos filhos, enquanto saímos em massa para o mercado de trabalho. Elas, literalmente, possuem identidade.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2Perguntas em busca de respostas

Por: Katia Muniz

Quando soube da reforma da Praça do Guincho, vibrei.

Espaço renovado, bancos novos, paisagismo, boa iluminação. Tudo para fazer jus ao entorno belíssimo, digno de cartão postal, que a natureza de bom grado nos entregou.

Desde junho, um tapume reveste toda a praça. Nesses dias, me peguei tentando enxergar, por uma fresta, o que havia do outro lado. A curiosidade sempre andou de mãos dadas comigo.

Agora não preciso mais esticar os olhinhos curiosos. Vândalos agiram e destruíram não só os tapumes, mas também parte das benfeitorias já realizadas. Volta-se à estaca zero.

Choro, grito, esperneio, faço o quê? Escrevo.

Paranaguá, porque a maltratam tanto?

Acho você tão bonita, tão cheia de graça, tão charmosa, com seus casarios históricos, com suas ladeiras. Entrega-nos de graça um rio e uma brisa capaz de nos revigorar e nos refrescar em tempos de calor escaldante.

Por que tanta gente insiste em jogar lixo na rua? Por que tantos abandonam mobílias velhas em locais públicos? Por que a Estação Ferroviária é, hoje, uma das nossas inúmeras vergonhas?

Que prazer sórdido é esse que faz destruir o que está sendo construído para o bem da coletividade?

Ah, Paranaguá! Incapaz de eleger um deputado estadual e federal, pois na época das eleições, muitos se candidatam apenas para medir sua força política, o que provoca a divisão de votos.

Paranaguá, eu sinto a sua dor. Fico triste ao perceber o quanto agoniza e perde suas forças.

Na morosidade típica e burocrática do funcionalismo público, as obras da Praça do Guincho serão retomadas.

Paranaguá, são tantas perguntas e não consigo encontrar as respostas. Mas prometo fazer só mais uma. Responda-me com o fio de força que lhe resta: Quem de fato nessa cidade te ama?

Crônica do Dia com Katia Muniz

Antes do Amanhecer

Por: Katia Muniz

antes-por-do-solApós assistir ao fabuloso “Boyhood”, saí do cinema cambaleando de emoção – isso tem tempo, foi em novembro do ano passado – e, desde então, venho prestando atenção em duas coisas: primeiro, no ator Ethan Hawke e, segundo, no diretor Richard Linklater.

Ethan virou meu queridinho. E lá fui eu dar uma olhada em outros filmes que ele protagonizou. Achei a trilogia do “Antes”, composto por: Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite. Todos assinados pelo mesmo diretor. Como se vê, Ethan também é o queridinho de Richard Linklater.

Um dia desses, usei uma imagem do filme Antes do Amanhecer para ilustrar uma crônica minha, no Facebook. E, assim como eu, tempo atrás, descobri que muita gente desconhece o filme.

Eu sou fã assumida do cotidiano. Deve ser por esse motivo que escrevo crônicas.

Gosto, realmente, do dia a dia. E das surpresinhas que a vida nos traz para sairmos da letargia e do marasmo.

Encontrei em Richard Linklater o mesmo gosto. Ele dirige sem pressa, preso a detalhes, escolhendo as cenas a dedo.

Antes do Amanhecer fala sobre paixão.

Em uma viagem de trem, os protagonistas se conhecem e não demoram muito para descobrirem que não era somente uma viagem qualquer.

Ele a convence a desembarcar em Viena, mas no dia seguinte, ela precisa estar em Paris e ele, retornar aos Estados Unidos.

A partir daí se dá o encantamento do filme.

A paixão cronometrada no relógio. A paixão com dia e hora para encerrar. A paixão com direito a intervalo, pouco tempo depois de nascer.

O casal passeia, conversa, troca o primeiro beijo, brinda o amor, dorme na grama de um parque, vê o dia amanhecer, faz a promessa de um novo encontro.

O filme é lindo na fotografia e em diversas cenas, incluindo a que os dois põem o sorriso bobo no rosto. Aquele, típico de quem está perdidamente apaixonado.

E segue assim, mostrando nuances, retratando a beleza que é descobrir o outro. Convidando a quem assiste a fazer os mesmos percursos do casal. Cutucando sentimentos.

Há quem não goste da lentidão, prefira a urgência dos fatos e o atropelo dos momentos. Se você faz parte do segundo time, não perca seu tempo vendo o filme, muito menos a trilogia.

“Antes do Amanhecer” nos diz de maneira sutil, através de seus protagonistas, que o dia amanhece para todos, mas não são todos que sabem viver e aproveitar cada segundo.

Crônica do Dia com Katia Muniz

kátia-muniz2Três anos depois

Por: Katia Muniz

Faz três anos que, toda sexta-feira, ouço meu nome na Rádio Ilha do Mel FM.

A jornalista Luciane Chiarelli e o âncora do jornal Rede Notícias, Flávio Petruy, emprestam suas vozes aos meus textos, leem frases das minhas crônicas, fazem comentários, dão opiniões.

Deixam o convite para a audiência, que os prestigia, a ler o que eu escrevo.

Assim, nossa ligação tem se solidificado. Parceria é um jeito, uma outra forma de se dar as mãos.

Comecei a escrever num ímpeto. Talvez, em toda a minha vida, essa tenha sido a única vez em que dei asas à impulsividade. A única vez em que não medi consequências. A única vez em que pensei no momento e não no futuro. Quem convive comigo sabe o quanto mantenho os meus pés bem fincados no chão. Que a razão costuma ser minha companheira inseparável.

Meus primeiros textos foram uma brincadeira, um hobby, uma ocupação de tempo.

Quando dei por mim, tinha uma coluna no jornal. Quando dei por mim, firmei parcerias. Quando dei por mim, meus textos ganharam espaço em dois blogs. Quando dei por mim, era lida.

A foto na coluna do jornal me identifica. É o rosto que autentica as letras. É o rosto que forma frases e parágrafos. É o rosto que assina os temas semanais das crônicas.

“Eu acompanho seus textos”.

Acuso o golpe cada vez que ouço essa frase. Ela me puxa para a realidade. Diz que, mesmo no silêncio e na solidão de cada texto que componho, há olhos, há reflexões, há respostas, há mensagens de apoio, há gente pedindo conselhos, há pessoas dando sugestões de pauta, há uma infinidade de alcances.

São quase quatro anos de coluna semanal e três anos de comentários na rádio. Festejo hoje, de maneira mais séria e responsável, a brincadeira do passado.

Aos que me acompanham nessa trajetória, meus grandiosos agradecimentos.

Cronista? Sei lá.

Sou só alguém que passou pelas portas que se abriram. Que resolveu deixar entrar as oportunidades que me visitaram.

Aos que seguem comigo, um brinde!

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2As idades

Por: Katia Muniz

Idade boa é aquela que tem sempre alguém resolvendo as coisas para nós. Escolhem nossas roupas, nos carregam no colo, dão comida na boca, nos dão banho. Crescemos um pouquinho, conseguimos caminhar com nossas próprias pernas, mas continuam a nos dar a mão para atravessar a rua, a marcar consulta no dentista, a nos levar ao médico e a nos dar remédio. Ainda não nos apresentaram a palavra responsabilidade.

Idade boa é aquela em que não basta apenas existir, é preciso aparecer. E para nos destacarmos no meio da multidão, a gente pinta o cabelo de vermelho, descolamos uns tênis coloridos, perfuramos o corpo e penduramos uns metais, marcamos a pele para sempre com dragões e caveiras, escutamos música no mais alto volume. E não estamos nem aí para o que dizem da gente. A onda é correr riscos e descobrir novos caminhos. E só não vamos mais longe, porque não temos um mísero centavo no bolso.

Idade boa é aquela em que a gente consegue o tão sonhado emprego.  Finalmente, vamos ter a grana que tanto queríamos. Independência à vista! Mas logo na entrevista, nos dizem que o cabelo não pode ser vermelho, que os piercings não são bem-vindos e que as caveiras e os dragões devem ficar bem escondidos. É nessa idade que a gente aprende que, para conseguir algo, temos que, em troca, abrir mão de uma série de outras coisas.

Idade boa é aquela em que encontramos a nossa cara-metade, e nosso coração aprende a ficar em disparada. É quando resolvemos juntar as escovas de dentes, termos companhia constante, sentir a delícia que é passar as noites de inverno aconchegados embaixo do mesmo edredom.

Idade boa é aquela em que os filhos já cresceram, que os netos aparecem de vez em quando, e a gente dá a atenção devida, mas sem nenhum tipo de responsabilidade sobre aquelas criaturinhas tão fofas. Já temos estabilidade financeira, não damos importância nenhuma para o que pensam de nós e, maravilha das maravilhas, ainda temos um bom tempo pela frente para aproveitar a vida.

Bom mesmo é ter o privilégio de passar pelo maior número de idades possível, sem apressar os passos, sem dar saltos e nem pular etapas.

Bom mesmo é viver cada uma delas, porque o acúmulo dessas idades é que nos dá a tão esperada experiência de vida e nos fornece histórias para contar.