Crônica do Dia, por Kátia Muniz

kátia-muniz2Balanço geral das crônicas – ano 3

Por: Katia Muniz                                                                   cronicaskatia@gmail.com

Enquanto boa parte das pessoas se estressa na função de comprar presentes para o natal, eu vou falar dos presentes que ganhei neste ano: continuidade da coluna no Jornal Diário do Comércio; dois textos aproveitados como tema de aula nas escolas Cipriano Librano Ramos e Regina de Mello; palestra na Escola Regina de Mello; premiação no Primeiro Concurso de Crônicas, Contos e Poesias realizado em Paranaguá; comentários semanais, dos textos, na Rádio Ilha do Mel – FM, nas vozes de Flávio Petruy e Luciane Chiarelli; duas entrevistas concedidas para a Rádio Ilha do Mel – FM; publicação das crônicas nos blogs: www.jornalismodailha.blogspot.com.br e www.blogdaluciane.com.br; ajuda pra lá de especial, dos sempre muito profissionais, atenciosos, simpáticos e pacientes professores do serviço de telegramática – disponibilizado pela Prefeitura Municipal de Curitiba; número de leitores aumentando; uma porção de gente bacana que conheci, única e exclusivamente, por causa dos textos; participação na Primeira Festa Literária de Paranaguá – Flipa.

Falar na Flipa, sobre as crônicas, foi um presentaço!

Há sempre algo assustador no novo. Há sempre o frio na barriga, que se instala. Há sempre dezenas de emoções que englobam o pacote do desconhecido. Mas são essas novas experiências que nos fortalecem.

A todos que, de alguma forma, se fizeram presentes neste ano que logo finda, meus sinceros agradecimentos.

A caminhada se torna mais leve quando é possível dividi-la com mais pessoas.

Finalizo mais um ano de coluna, nesse espaço do jornal. Espero vocês em fevereiro de 2015. Com a rapidez que segue o tempo, não vai demorar. Nosso reencontro estará logo ali na frente.

Para encerrar 2014, um brinde!

Crônica do Dia

kátia-muniz2Amor em estado puro

 Por: Katia Muniz                                                                      katiacronicas@gmail.com

A gente ama pai, mãe, irmãos, avós, amigos.

Amamos cada um de um jeito, cada um de uma forma, cada um com suas particularidades.

Achamos que o amor está todo resumido aí. Até o dia que resolvemos ter um filho.

Antes mesmo dele nascer, já nascemos como pai e mãe. Vamos organizando o quarto, vamos fazendo o enxoval, vamos fazendo planos, vamos sonhando dormindo e acordados.

Vibramos com as ultrassonografias, com os presentes recebidos, com o carinho daqueles que tanto estimamos.

Daí ele nasce e a gente descobre que não sabíamos de nada.

Que tudo que foi vivido até agora faz parte de um outro plano. A vida passa ter outro gosto, outros desafios, outras aventuras, outras nuances.

O par vira ímpar num triângulo perfeito. Três pontas unidas. Três pontas conectadas.

O dia a dia vira uma escola sem cadernos, sem apostilas, em que as teorias são engolidas pela prática.

Ensinamos e recebemos ensinamentos. Aprendemos com cada choro, com cada sorriso, com cada consulta ao pediatra, com a hora de amamentar, com os banhos, com as trocas de fralda, com as cólicas, com as mamadeiras, com as pomadas para assadura. A natureza se encarrega de nos diplomar.

A gente segue fazendo essa troca mágica de aprender e ensinar e de ensinar e aprender durante a vida toda.

Filho é um presente de Deus. Filho é nossa doação maior. Filho é a nossa entrega. Filho é aquele ser capaz de revelar quem realmente somos.

E quem somos, agora, diante daquele pequeno ser?

Somos pai e mãe descobrindo o verdadeiro amor.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Não confie

 

Por: Katia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

 

São recorrentes as matérias em vários meios de comunicação falando sobre homens que se aproximam de várias mulheres, ao mesmo tempo, engatam um envolvimento e, a partir daí, começam a tirar delas dinheiro, joias, imóveis e o sossego.

 

Na condição de ouvintes, telespectadoras ou leitoras das situações elencadas no parágrafo acima, é inevitável disparar verbalmente ou em pensamento: como é que essa tonta foi cair num golpe desses?

 

Se você assistir ao filme “Confia em mim” vai entender direitinho.

Uma coisa é ouvir relatos de fatos que já aconteceram, outra é observar atentamente como a aranha constrói a teia.

Na ficção, Caio, o golpista, é o ator Mateus Solano que, claro, atrai suas vítimas com um jeito sedutor, educado, viril, bem-humorado, brincalhão. E quem cai são as mulheres que não resistem a esse galanteio todo.

O filme é um alerta, um serviço de utilidade pública. Vale assisti-lo para a gente entender como funciona o crime na vida real.

O golpista é o famoso lobo vestido em pele de cordeiro. Arma uma trama cheia de mentiras. E o fato da mulher não ter grana, não é motivo para ele não se aproximar. Com boa lábia, ele a faz ir ao banco fazer empréstimos.

Tudo é bem contado, relatado de forma a não levantar suspeitas. E as mulheres, muitas vezes movidas pela carência afetiva, vão atendendo aos pedidos absurdos que são milimetricamente arquitetados. Quando se dão conta do golpe, resistem a acreditar que aquele homem tão bem apessoado e cheio de cuidados com ela foi capaz de promover tamanho estrago. E que estrago! Li sobre casos em que vítimas perderam absolutamente tudo. E quando falo tudo, englobo, além de bens materiais, os danos que se fazem por dentro. É um baque, uma navalhada, uma pancada que exigirá, no mínimo, acompanhamento psicológico.

Usei a coluna para espalhar o alerta. Acredito que informação é válida, pois é também uma forma de prevenção. Que a gente se mantenha atenta aos que batem a nossa porta!

Crônica do Dia, de Kátia Muniz

kátia-muniz2A gente se vê

Por: Kátia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

Assisti ao filme “Os Homens São de Marte… E É Pra Lá Que Eu Vou”. Por sinal, agora também é série no canal GNT.

A película é prato cheio para boas risadas, mas também deixa aquela sensação de que já vi isso antes.

A cena do creme no rosto é a mesma que acontece no filme “Divã”, o que mudam são os atores. E quem já leu o divertido “Louca por Homem” da escritora Claudia Tajes, também vai encontrar semelhanças.

Mas deixa pra lá! A vida também se repete, com pouquíssimas variações, há milhões de anos e todo mundo quer continuar em cena.

No filme, a protagonista Fernanda, interpretada pela atriz Mônica Martelli, procura um amor. Quem não?

Enquanto se enche de expectativas para cada possível pretendente que aparece a sua frente, ela vai revelando as mirabolantes situações que uma mulher pode viver quando a idade avança e o relógio biológico faz tic-tac-tic-tac.  Ou seja, ela precisa de um amor pra ontem. Pode ser?

Escreveria umas dez crônicas com as inúmeras colocações do filme, mas para não cansar a sua beleza nem a minha vou me ater a uma só.

-“A gente se vê”. É o que ela ouve de um dos seus candidatos ao amor.

Nenhuma mulher entende essa frase.

“A gente se vê” é vago, é lacuna, é espaço aberto. Falta completar os pontinhos. Faltam mais palavras à frase.

A gente se vê amanhã no jantar. A gente se vê no próximo final de semana. A gente se vê à tarde. Ou, que tal, uma frase bem cheia: A gente se vê hoje mesmo, porque eu não aguento mais ficar longe de você! Uau, querida, tá esperando o quê, apaixone-se!

Receber um “a gente se vê” daquela pessoa em que estamos apostando as fichas, é instalar, automaticamente, uma coleção de interrogações no cérebro. Nenhuma mulher sai ilesa depois de ouvir a primeira frase mais temida por elas, digo primeira, porque a segunda é: “eu te ligo”. Bah!

“A gente se vê” é angustiante, torturante, dilacerante. “A gente se vê” pode ser sinônimo de ficamos por aqui. Mas como nada foi dito com todas as letras, seguimos fantasiando um possível amor. Relutamos em enxergar o fim de algo que nem bem começou. Queremos vírgulas e não ponto-final. Queremos vários parágrafos e o desenrolar de uma boa história. Queremos cenas dos próximos capítulos porque acreditamos que o amor dá ibope.

“A gente se vê”.

Quando? Onde? Como? A que horas? Na sua casa ou na minha?

Respondam meninos, para que a gente possa soltar o cabelo, fazer as unhas, retocar a maquiagem, subir no salto e estar pronta para receber este amor.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Que país é este?

 Por: Kátia Muniz                                                                   katiacronicas@gmail.com

O Brasil é geograficamente lindo! Há praias paradisíacas, regiões serranas, chapadas, rios e uma imensidão de paisagens que fazem nossos olhos brilharem!

Infelizmente, não é só beleza que ele carrega.

Não havia ninguém em casa para assinar o protocolo de recebimento que o carteiro trouxe. Resultado: um aviso foi deixado dizendo para que a correspondência fosse retirada no depósito dos Correios.

Numa bela tarde de sol a pino formava-se uma fila quilométrica ao ar livre. Gente que poderia usar esse mesmo tempo trabalhando, produzindo, estudando, estava lá em pé, esperando ser atendida. Quem já precisou retirar correspondências neste local sabe bem do que estou falando. Com o calor do meio-dia derretendo os neurônios e a paciência, foi possível escutar de uma pessoa: – “Ainda bem que esperamos na sombra”.

Sempre estranhei essa aceitação passiva do pouco. De encarar tudo com normalidade.

Considero uma falta de respeito ter que esperar horas por qualquer prestação de serviço. Principalmente, os que estão relacionados ao serviço público. Uma vez que contribuímos com impostos exorbitantes, a contrapartida deveria ser, no mínimo, um local adequado e digno para o aguardo do atendimento. Em pé, seja na sombra, no sol, expostos a qualquer intempérie, com consumo de um tempo extremamente valioso, acho um absurdo vergonhoso!

Não basta ser um país lindo! É preciso poder olhar suas belezas com o vidro do carro abaixado sem ter o medo iminente de que no próximo semáforo seremos assaltados. É preciso frequentar as praias com a tranquilidade que o lazer requer e não apreensivos achando que em segundos estaremos no meio de um arrastão.

Não basta ser lindo e viver com grades de segurança nas janelas. Com câmeras de vigilância. Com o pavor de andar a noite.

Não engulo o sistema absurdamente precário de saúde. E me solidarizo com os médicos que atendem e tentam salvar vidas diante do caos e da falta de estrutura que se encontram os hospitais e postos de atendimento.

Jamais me descerá redondo a desvalorização dos profissionais da área de educação. Deveríamos, a eles, bater continência. São os professores que diariamente enfrentam salas de aula superlotadas, repletas de alunos com os mais variados tipos de problemas emocionais e educacionais. São eles que se doam para fornecer educação num país que não os reconhece.

Nunca vi com bons olhos esse sistema governamental de não poder reprovar. E sei que boletins com notas acima da média demonstram, muitas vezes, uma realidade que não condiz com a prática. Dói quando vejo adolescentes e jovens escrevendo errado. Dói quando vejo alunos despreparados sendo empurrados para os próximos anos. E sabe o que mais dilacera? Perceber o retrocesso.

Faço supermercado toda semana. Abasteço o carro. Compro roupas. Compro calçados. Pago luz, água, telefone. Em nenhum momento tenho a ilusão de que a inflação esteja controlada.

E se eu tivesse 55 anos, fosse economista formada, qualificada profissionalmente, sem conseguir me recolocar no mercado de trabalho e participasse de um debate televisivo na condição de eleitora indecisa, e ouvisse de qualquer futuro candidato a Presidência do Brasil que deveria fazer curso no Pronatec para conseguir emprego, saberia, no exato momento da resposta, reconhecer o terreno arenoso em que se transformou esse país.

Portanto, não faz parte de mim, digerir tudo que me é apresentado. Questiono, indago, enfrento.  Caio, levanto, tiro o pó deixado na roupa e prossigo.

Não foi esse Brasil que escolhi para educar o meu filho. Continuarei com a esperança de que ele mude e me compadeço daqueles que aceitam de bom grado esperar na sombra.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Educar X Escolarizar

Por: Katia Muniz                                                                      katiacronicas@gmail.com

Recebo por e-mail vídeos, frases e pedidos para eu escrever sobre determinados assuntos na coluna semanal. Alguns, até consigo atender, já outros, sorry! Outro dia, uma conhecida me enviou um vídeo com um trecho de uma entrevista do Mário Cortella.  Cada palavra que ele pronunciava eu batia palmas. Quanta coerência!

O assunto era sobre educação e escolarização. Deixando claro que, educação vem de casa, enquanto cabe à escola escolarizar.

Todos sabem disso, não sabem? A resposta é uma negativa em maiúscula: NÃO!

Com esses novos arranjos na vida familiar, em que cada vez mais as mulheres estão fora de casa e dentro do mercado de trabalho, as crianças passaram a ir mais cedo para escola. Aqui, não estou falando de alfabetização, e sim, do contato que as crianças estão tendo em creches ou escolas particulares.

Acabou a licença maternidade e lá estão os pequenos entre fraldas e chupetas numa escolinha, muitas vezes em tempo integral. Lá aprendem a se socializar, a dividir, a competir, a buscar o seu espaço, a entender que são mais um no meio de muitos. Numa legião de filhos únicos, que sejam bem-vindos a esse contato enriquecedor no aprendizado da vida.

Papai e mamãe costumam cumprir uma carga horária extensa fora de casa. As energias estão por um fio quando retornam para encarar mais um turno, desta vez, com a criançada. Comida, banho, auxílio nas tarefas escolares, brincar, leitura antes de dormir. Ritual elencado por qualquer profissional entendido em educação, mas que na prática não vem se mostrando como recomenda a cartilha.

Para os pais, o pacote da vida moderna acompanha cansaço físico, mental, esgotamento emocional, estresse, insegurança, responsabilidades diversas, incluindo aí o direcionamento e a educação dos filhos. Educar dá trabalho. Ensinar valores, respeito a si e ao outro, o que pode e o que não pode, o certo e o errado demandam entrega. Como os pais ou responsáveis estão fora de casa muito tempo, a fim de garantir uma vida melhor para a prole, acaba sobrando para os professores a tarefa de educar, além da de escolarizar.

Segundo o vídeo, nunca houve tantos casos de agressão a professores como os que vêm ocorrendo atualmente. A escola, com esforço, tenta impor limites a essa nova geração. Cobram disciplina, cobram realização de tarefas e fiscalizam as atividades que deveriam ser realizadas em casa.

Educar X Escolarizar.

Aos professores cabe ensinar as disciplinas: português, matemática, geografia, ciências, artes, história, entre outras. Eles de fato contribuem, acrescentam, somam com uma parcela da educação dos nossos filhos.

O educar vem de casa. Tarefa dos pais ou responsáveis pela criança.

É a união desse “duo” educacional que serve como medidor de resultados positivos ou negativos das atuais e futuras gerações.

Nosso encontro com a urna

kátia-munizPor: Katia Muniz

Outro dia, um amigo comentou que havia passado um ano de sua formatura na faculdade. Já!

O Facebook me envia uma mensagem avisando que uma conhecida estará de aniversário. De novo! Quantas vezes essa mulher assopra velinhas no ano? Juro, ela recebeu meus cumprimentos esses dias!

São sustos comuns de quem não acredita que o tempo anda viajando de avião supersônico. Nos dois casos se passaram os trezentos e sessenta e cinco dias, mas a gente acaba sentindo como se tivessem transcorrido uns cinco meses.

Não deve ser só comigo, você também deve se atrapalhar de vez em quando, não é mesmo?

Estou falando de tempo porque quero entrar no assunto “eleição”.

Domingo é dia de votar. De exercermos nossa cidadania. Elegeremos presidente, deputados, governador e senador. Apesar de cada um ter um importante papel, é sobre o voto para presidente que eu discorrerei os próximos parágrafos.

Por mais que tudo a nossa volta nos pareça veloz e fugaz, quatro anos de um governo sem rédeas, fazem os dias encontrarem parentesco com a velocidade de uma tartaruga.

As simulações apontam que é muito rápido votar. Descobri que a média estipulada para esta eleição é de um minuto e catorze segundos, ou seja, em menos de dois minutos você resolve a questão. Um flash, um sopro! Só não vale esquecer que esses minutos representarão os próximos quatro anos de governo e, consequentemente, nosso futuro.

Domingo teremos o nosso encontro com a urna. Estaremos presentes, mesmo que a desilusão com a política nos tome conta, mesmo que as palavras e discursos pomposos não mais nos convençam. Ainda assim, remexendo internamente, somos capazes de encontrar um fio de esperança.

Não será preciso acordar nenhum gigante, nem fazer estardalhaços. Cada um deve se dirigir à urna com os metros e centímetros que lhe pertencem, porque o ato de votar, por si só, nos torna fortes, enormes e iguais.

A responsabilidade de quem escolheremos para cuidar da nação é nossa. Motivo mais que suficiente para fazer valer o nosso voto.

Muda-se tudo ou deixa-se como está? Em pouco tempo saberemos a resposta.

Crônica do Dia

kátia-munizPanos de prato

 Por: Katia Muniz                                                              katiacronicas@gmail.com

Naquele momento, a rua estava com pouco movimento. Uma mulher organizava, calmamente, algumas sacolas com compras no porta-malas do carro, quando foi abordada por um adolescente, também com uma sacola nas mãos:

– Moça, para ajudar minha mãe, eu vendo panos de prato pintados à mão, quer comprar?

Ela olhou estupefata para o garoto. Assustada, começou a dispor as compras de qualquer jeito dentro do carro, como quem quer se livrar logo do serviço.  Respondeu ao jovem que não tinha interesse.

Ele não insistiu, deu meia-volta e foi atrás de outra pessoa.

A violência é tamanha que o simples fato de algum desconhecido nos dirigir a palavra nos assusta.

Naquela sacola, poderia haver panos de prato, como também, poderia haver uma arma. Vai saber.

Na mesma semana, dois acontecimentos de derrubar o queixo:

Primeiro: Um homem de 55 anos é morto a facadas por um jovem de 19 anos, em Matinhos, litoral do Paraná.

Segundo: Um adolescente de 15 anos, com histórico de mau comportamento na escola, revolta-se com a professora e resolve o quê? Golpeá-la com uma faca dentro da sala de aula. Aconteceu em Piraquara, região metropolitana de Curitiba.

Há que ponto chegamos! Andamos assustados, temerosos, em pânico.

O garoto estava mesmo vendendo panos de prato. Foi visto, na sequência, concluindo uma venda para uma outra pessoa. Mas, diante de tantos casos absurdos que nos chegam todos os dias, estamos incrédulos. Desconfiamos de estranhos que nos dirigem a palavra. Paralisamos, ficamos perplexos.

Não nos abordem na rua, em estacionamentos ou qualquer outro lugar. Não apareçam com as mãos nos bolsos, com sacolas perto de nós. Nossa ingenuidade foi-se por terra. O medo nos congela e não nos permite a chance de apreciar trabalhos manuais de uma dona de casa que tenta conseguir alguns trocados, pondo seu filho para vender panos de prato.

Você já fez obra na sua casa? Então vai se divertir com a crônica da Kátia Muniz

kátia munizMãos à Obra

cronicaskatia@live.com

Chegam os azulejos, os rejuntes, os porcelanatos, os sacos de cimento, areia, tijolo.
Sinto cheiro de mudança, de renovação, da casa com um ar novo, na mesma proporção que sinto também o cheiro de incômodo, se incômodo cheiro tivesse.
Obra em casa é legal desde que você esteja a uns bons raios de distância. De preferência em outro país.
Queria, na minha vida, um Luciano Huck que me convocasse para participar do quadro “Lar Doce Lar”. Aquele em que hospedam a família num hotel enquanto a casa vem a baixo. Derrubam paredes, alteram a planta original, pintam, decoram. A família só retorna com a residência reformada, reestruturada e limpa. Tudo pronto! Agora, é só fazer cara de feliz, o que, convenhamos, não é nada difícil, depois de passar um bom tempo com sombra e água fresca, enquanto um batalhão de gente arcou com gastos e perturbações.
Sorria, você está sendo filmado!
Quebram, martelam, furam. A bateria de uma escola de samba faz menos barulho.
Obra tem o poder de congelar o calendário, dentro da residência. Passam-se os dias lá fora. Internamente, a impressão é que se leva meses entre o assentamento de um azulejo e outro.
– Vai faltar cimento.
– Quanto, seu Zé?
Seu Zé não tem pressa no raciocínio. Gruda os olhos castanhos na parede fazendo uma conta imaginária.
Faço pressão: – Quanto, seu Zé?
Vinte anos se passam para ele afirmar sem muita convicção que precisará de dois sacos de cimento.
Corro até a loja de material de construção. Esses dias uma senhora me perguntou se eu estava trabalhando lá. “Olha, não duvido se encontrar o meu retrato pendurado, não como funcionária do mês, mas como cliente do mês”.
Tempos depois, retorno com o pedido.
– Vai faltar rejunte.
Faz tempo que não me deparo com meu próprio sorriso. Seu Zé deve tê-lo cimentado e rejuntado em algum lugar da casa. É bem possível que tenha surgido daí a falta de material.
– E paciência, seu Zé, vende onde?

Seu Zé fixa novamente os olhos na parede e mais vinte anos se passam.

Crônica do Dia

kátia munizQue trazes pra mim?

Por: Katia Muniz                                                                   cronicaskatia@live.com

Lá pela década de 70, era bem diferente. Não havia grande oferta, nem a variedade de chocolates e de embalagens que há hoje no comércio.

pascoa-05 A criançada ganhava miniaturas de ovos, coelhinhos minúsculos ou ovos com tamanhos que não beiravam o exagero.

As mães costumavam comprar os ovos com alguma antecedência, cerca de uma semana antes, para não correr o risco de faltar, e colocavam os chocolates na geladeira para não derreter.

As crianças esperavam, pacientemente, chegar o domingo de Páscoa para abrir as tais guloseimas. Passavam a semana salivando. Era uma tortura cada vez que abriam o refrigerador, mas sabiam esperar.

Aquela era a semana mais longa das suas inocentes vidas. Sete dias, uma eternidade.

– Mãe, quantos dias faltam para o domingo?

– Cinco dias.

– Ainda!

O calendário não tinha pressa, os segundos se arrastavam e a vontade de comer os chocolates só aumentava.

Era só na época da Páscoa que a criançada se deleitava. No restante do ano, até ganhavam um bombom aqui e outro muito lá na frente. Por isso, era um momento tão aguardado e tinha o seu encanto.

Vamos saltar para o ano de 2014.

Gosto de ver a criançada de boca aberta, pescoço esticado, com olhinhos hipnotizados a contemplar o parreiral de ovos de chocolate que proliferam nos supermercados.

Enquanto se entregam os presentes de Natal, os coelhos já estão a todo vapor produzindo os ovos. E enquanto se pula o carnaval, os chocolates vão chegando ao parreiral de ferro.

Mariazinha, que acompanha a mãe duas vezes por semana no supermercado, ganha um pequeno ovo cada vez. Abre ali mesmo e o devora. Passa o resto das compras com o rosto lambuzado denunciando a façanha.

Rodriguinho, não gasta nem as palavras. Aponta para o chocolate escolhido, e, rapidamente, a gostosura salta para suas mãos, e de suas mãos para a boca.

As crianças ganham chocolates dos tios, dos padrinhos, dos avós, dos amigos, dos pais e de quem mais se propuser a agradá-las. Ganham também na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e no domingo. Tanto faz se são 8 horas da manhã ou se já ultrapassam as 22 horas. Todo dia é dia, toda hora é hora.

Sem ter a sensação da espera e sem se importar com a da data programada para a comilança, elas já não salivam tanto pelo chocolate em si, pois esse não lhe é negado o ano inteiro. A expectativa, agora, fica por conta do objeto que acompanha o ovo. Nada é mais emocionante e excitante para elas do que quebrar o chocolate ao meio e ver saltar dele uns bichinhos de pelúcia ou uns brinquedinhos esquisitos.

Elas são seduzidas pelo recheio, pelo acompanhamento, pelo que está oculto, encoberto. É ali que moram a curiosidade e o desejo.

Chocolate elas ganham e comem aos montes nos outros meses. A única diferença é que, nos bombons que fazem parte da sua infância durante o ano, não há os tais brinquedos escondidos.

Resta-nos saber até quando.