Crônica do Dia: Desacreditados

desacreditadosPor: Kátia Muniz

As eleições batem à porta. Toc, toc, toc.

Realmente, acho lindo quem tem o poder da oratória. Quem segura o microfone e consegue fazer jorrar as palavras, sem perder a linha de raciocínio. Não pigarreia, não gagueja, não titubeia, não demonstra insegurança. Tem a fala firme, dá ênfase às frases de efeito, sobe e desce a voz num balé, tecnicamente ensaiado. As mãos não tremem, os olhos se mantêm firmes encarando aqueles que têm potencial para lhe entregar votos na urna. Inegável o poder de convencimento, que quase me pegam. Eu disse quase. Sou arisca. Continue lendo

Crônica do Dia: Gratidão

Jornal Diário do Comércio, Rádio Ilha do Mel e Blog da Luciane representados nesta foto e no texto, junto com a Kátia Muniz

Jornal Diário do Comércio, Rádio Ilha do Mel e Blog da Luciane representados nesta foto e no texto, junto com a Kátia Muniz

Por: Kátia Muniz

Comecei a escrever para preencher o tempo. Levei na brincadeira, na esportiva. Era um hobby. Deve ser bom para exercitar o cérebro, pensei. Sinceramente, nem sabia direito o que estava fazendo. Vários textos foram armazenados no meu computador à espera de que eu criasse a coragem para mostrá-los a alguém.

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Crônica do Dia: Obsessão

obsessoesPor: Kátia Muniz

Quando se ama muito a algo ou a alguém, é natural querermos falar sobre o assunto que nos causa tanto prazer, que nos entorpece e que é responsável por nossa euforia. E pra quem costumamos direcionar a ladainha da nossa razão de viver? Para nossa família e para os amigos íntimos. Continue lendo

Crônica do Dia: Vila Velha de ontem e de hoje

ponta-grossaPor: Kátia Muniz

1983 – Era comum, nessa época, fazer excursão após a colação de grau. Escolhia-se o destino. Fretava-se um ônibus, devidamente pago com o dinheiro arrecadado na venda de bolos, rifas, bazares de pechincha, mensalidades.

Ganhávamos a alforria depois de alguns anos de estudo. Uma viagem com a turma, longe da patrulha dos pais e perto dos olhos de três ou quatro professores, escalados pela direção do colégio para botar ordem na garotada. Tínhamos entre 13 e 14 anos e havíamos encerrado o período ginasial.

Rumamos para o Parque Estadual de Vila Velha, pertinho de Ponta Grossa – Paraná.

Lá chegando, descemos do ônibus afoitos por aventura. Olhinhos brilhando pelo fascínio da primeira viagem com os amigos.

Recebemos um mapa com as indicações das principais esculturas feitas, pela ação do tempo, nos arenitos. Colocamo-nos a desbravar.

A sensação de liberdade gritava em cada poro. Subíamos e descíamos as pedras. Andávamos no rumo e sem rumo pelos caminhos. Falávamos sem parar. Ríamos de bobagens. Lá pelas tantas, subimos no alto das pedras, dividimos uma Coca-Cola no gargalo, comemos  sanduíches (talvez os melhores de nossas vidas) e algumas bolachas recheadas para coroar o momento tão sublime.

Não há uma única foto que comprove essa viagem. Os registros ficaram arquivados na memória de cada um.

2016 – Somos levados em um ônibus, do próprio parque, até um guia. Ele nos dá uma aula rápida sobre as formações rochosas antes de seguirmos a caminhada. Visitar Vila Velha hoje é um passeio na praça. Pode ir até de chinelo, se você assim preferir. Percorre-se uma trilha calçada com pedras colocadas de forma ordenada. O grupo marcha em ritmo cadenciado numa fila indiana e ninguém ousa botar os pés fora da trilha. Proibido comer durante o trajeto. Permite-se água. Ouvimos conversas alheias, misturam-se as famílias, impossível tirar fotos sem que outras pessoas desconhecidas apareçam.  Ninguém toca nos arenitos. Eles são vistos a uma distância reservada. Fizeram um mirante para se apreciar a famosa “Taça”. Na parte dos bosques é possível chegar mais perto das rochas. Elas trazem cicatrizes. Nomes, sobrenomes, datas, corações apaixonados e flechas estão esculpidas como marca de que algumas pessoas passaram por ali. São inúmeras cicatrizes de um tempo em que a informação nos chegava de forma precária ou, na maioria das vezes, nem chegava. Terminado o passeio, aguarde. Outro ônibus o levará de volta ao ponto de início. Como se vê, tudo muito civilizado. Nem de longe lembra o fuzuê da década de 80.

O Parque teve que adotar novas medidas de preservação para que as futuras gerações possam também ver e usufruir dessa maravilha da natureza.

Agora, com informação sabemos que os responsáveis estão no caminho certo. Maltratamos demais a natureza, justo ela, que nos brinda com tanta beleza. E viva a rima!

Vila Velha está enquadrada. Há regras, limites, cuidados. Guarda Ambiental em vigília. Melhor infraestrutura para receber turistas. Tudo pensado em prol dos nossos filhos, dos nossos netos, bisnetos e dos que ainda estão por vir. Eles não deixarão nenhuma marca nos arenitos, seus registros por ora, se resumem as inúmeras selfies, o que convenhamos, são bem menos agressivas.

Crônica do Dia: Ainda há salvação

Untitled-design-19Por: Kátia Muniz

Comprei um eletrodoméstico novo. A vendedora, na hora de fechar a venda, me disse: “Um dia antes da entrega, a senhora receberá do nosso departamento de estoque, no seu celular, uma mensagem lembrando-lhe que, o objeto comprado será entregue no dia seguinte. E, no dia, receberá um telefonema de nossos entregadores, informando o horário da entrega.”

Sorri de canto, com ar incrédulo. Muita organização para um Brasil tão desorganizado.

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Crônica do Dia: Caçar

RMIs0gkPor: Kátia Muniz

Meu amigo, minha amiga, a ordem agora é caçar.

Você precisa caçar alguma coisa para não se sentir tão fora da turma e não correr o risco de ser comparado a um alienígena.

Cace rã, cace emprego, cace um namorado ou uma namorada, cace um livro, cace um filme e cace, se você gosta, os bichinhos do tal jogo que, atualmente, virou febre. Não vá me dizer que você não sabe do que eu estou falando!

Eu também caço. Sossegue. Não se apresse com as conclusões e deixe-me completar a frase: Eu caço assuntos e palavras.

Geralmente, as pessoas tendem a achar que as crônicas saem, assim, num sopro. Não fazem ideia do quanto eu tenho que caçar. Tarefa árdua, não se iluda.

Estou o tempo todo caçando, radar ligado até que, de repente, soa o alarme dentro de mim. Pronto. Chegou o assunto, agora pode pular para a fase dois: caçar as palavras para desenvolvê-lo.

Que útil seria um aplicativo baixado no meu celular, similar a do joguinho, me avisando os pontos, na cidade, em que eu tenho que ir para me abastecer da munição necessária para o desenrolar da escrita. Em vez de “PókeStops” um “PókeWords”!

“Vire-se com o cotidiano, Kátia. E faça bom proveito”, diz a voz da minha consciência.

E foi o cotidiano e o filho pré-adolescente que me apresentaram a nova mania. Eu não me rendi, mas também não faço auê e minimizo reclamações.

Sou grata aos tais bichinhos do jogo por me fornecerem o assunto que preencheu a coluna do jornal.

Mas convenhamos, de nada adianta escrever sem ser lida. E agora vem a parte boa do meu combate: Se você leu o texto, eu capturei você. “Game over”.

Crônica do Dia, com Kátia Muniz

kátia-muniz2Cartilha do amor

Por: Katia Muniz

Ainda lembro da minha cara assustada, na aula de Ciências, quando a professora tentava, da maneira mais didática possível, explicar sobre a sexualidade.

Falava-se sobre os sexos. Mas não nos ensinaram sobre o amor.

Não me recordo de alguém ter dito que o amor é lindo e também é frágil. Recomenda-se manusear com cuidado os corações preenchidos. Instale a etiqueta Handle with care, por precaução.

Não nos entregaram uma cartilha com um sumário detalhado das minúcias que envolvem esse sentimento.

“Abram na página 25. Hoje, vamos aprender como conquistamos o outro.” Se houve essa aula, eu não estava presente e duvido muito que você também estivesse.

Lembro que, na época, as moçoilas eram incentivadas a ler Sabrina, Júlia, romances que nos levavam para qualquer lugar no espaço, mas que se apresentavam anos-luz da realidade.

Mas a gente não demora muito para perceber que o amor se aprende é na prática. Não há outro jeito, outra fórmula, outro método.

Amor é a tentativa de fazer funcionar duas pessoas diferentes em um par afinado. Há de se ensaiar muitas vezes. Nem sempre se acerta de primeira.

Duvido das receitas que anunciam o amor em dez passos. Como uma sequência mágica em que basta seguir à risca para se ter a garantia do resultado.

Tudo bobagem.

Amor é pele, é contato, é cheiro, é desejo, é algo que faz pulsar dentro.

Amor é conversa, é saber ceder, é chamar para o diálogo.

Amor requer ingredientes na medida e fogo brando.

Também desconfio das chamas que queimam de maneira abrasiva. Excessos costumam desestabilizar, sufocar, amarrar, prender, fechar.

Amor é liberdade, nunca prisão.

Amor não tem lógica. Chega sem anúncio. Às vezes, no momento exato; em outros, totalmente, fora de previsão.

E segue a maioria, buscando, na multidão do planeta, alguém que preencha as nossas brechas e o que nos falta.

Quando funciona é uma das coisas mais belas da vida.

Sem receitas, sem cartilhas, sem páginas, sem palavras de ordem.

Encaixou, serviu? Ergam as taças. Brindem o amor. Sirvam-se.

Acho lindo quando a vida e a mesa são postas para dois.

 

 

 

 

 

Crônica do Dia- Que Vergonha!

Boy (9-11) with head buried in sand

Que vergonha!

Por: Katia Muniz

O Brasil é riquíssimo em belezas naturais. Praias paradisíacas, rios, cachoeiras, arquipélagos, chapadas.  Tudo de tirar o fôlego!

Chorão, ex-vocalista da banda Charlie Brown Jr., cantava o verso: “Molduras boas não salvam quadros ruins”.

E o que se anda pintando neste país não há moldura que salve.

Por aqui, pintam o sete, desenham o oito e surrupiam altos dígitos.

Invadem hospital com armamento pesado para resgatar um traficante.

Constroem ciclovia ao preço de quase 45 milhões de reais e, três meses depois de inaugurada, assistimos, estarrecidos, à parte dela ir, literalmente, água abaixo. Pior, com saldo de mortes.

Há estupro coletivo. Há barbáries em cada esquina.

Ah! Por aqui, também levam onças para servir de alegoria durante a passagem da tocha olímpica. E depois? Bem, depois o animal se irrita e se estressa com o circo todo , diz a que veio usando seu instinto selvagem e o abatem.

O que, comumente, se ouve após tantas notícias escabrosas é que vão apurar os fatos e punir os responsáveis. Responsáveis? Ou seriam irresponsáveis?

Se os responsáveis ou irresponsáveis serão punidos, provavelmente, não saberemos. Estaremos ocupados vendo a abertura da Olimpíada, enfrentando filas quilométricas para pagar contas, aguardando senhas para sermos atendidos em hospitais sem estrutura ou driblando o curto dinheiro com a enorme lista do supermercado. Nada que nos tire o humor para também nos envolvermos com os próximos sambas-enredos do Carnaval de 2017, quando derrubaremos o queixo diante de vários pares de seios siliconados e desnudos.

Afinal, se há algo que esse país sabe fazer bem é Carnaval. E o serve o ano inteiro.

Copa, Olimpíada. Será que ninguém vê que nossas prioridades são outras e de caráter emergencial?

Será que não tem ninguém, com um mínimo de bom senso, para enxergar que não é prudente levar duas onças para uma cerimônia, no meio da multidão?

Envergonha-se quem ainda carrega alguma decência.

Juma e a Olimpíada. Para mim, as duas foram abatidas.

Crônica do Dia com Kátia Muniz

kátia-muniz2A chance desperdiçada

Por: Katia Muniz

O filme “Que horas ela volta?” me rendeu uma crônica no ano passado e, desta vez, volto a ele para comentar sobre o diálogo que antecede uma cena que acabou dividindo opiniões na mídia, mas que eu achei encantadora: a do pedido de casamento. Em um determinado momento, o personagem Carlos diz: “… Às vezes a gente fala umas coisas que podem parecer loucuras, mas se eu não falo, talvez isso seja loucura…”.

Ele ressaltava a importância de falarmos o que realmente sentimos, uma vez que não sabemos se teremos uma segunda chance.

Eu devo ter me remexido na poltrona do cinema umas vinte vezes quando ele proferiu essa frase.

Pensei nas pessoas que carregam amores que nunca foram declarados, expostos, mencionados. E exatamente por nunca terem sido expostos, deixaram de formar os casais, os pares.

Pessoas que arrastam sentimentos por anos porque simplesmente não conseguem falar. Falta-lhes a coragem da exposição, enquanto impera o medo do ridículo, o pavor de errar a fala, o gaguejar em virtude do nervosismo, o constrangimento ao desnudar a alma.

Alma desnuda é alma vulnerável.

Mas desconheço cena mais bela do que alguém dizendo com todas as letras que lhe cabem os mais lindos sentimentos!

Que loucura gostosa botar para fora o que nos sufoca, o que nos acorrenta, o que nos prende ao chão.

Que loucura magnífica conseguir dar vazão às palavras certas, que servirão para acariciar o outro.

Que loucura sublime dizer que sente falta, que gosta, que ama.

Eu me rendo aos loucos atrevidos que dizem tudo com as faces ruborizadas. Esvaziam-se, despem-se, libertam-se.

Loucura é protelar, é esconder, é abafar, é trancafiar, é deixar para um amanhã que não se sabe ao certo se vai existir.

Loucura é enganar-se, é guardar tudo para si, é arrastar o peso dos sentimentos não revelados.

Desperdiçar uma chance é extinguir a intensidade dos momentos.

Isso também é uma forma de óbito.

Crônica do Dia

kátia-muniz2Flechas do cupido

Por: Katia Muniz

Janeiro é lento. Fevereiro, cheio de ziriguidum. Março me traz idade nova. Abril, Páscoa. Maio é maternal. Julho nos pede uma parada. Agosto, paternal. Setembro, florido. Outubro lembra crianças. Novembro requisita acúmulo de energia. Dezembro é a queima da energia acumulada, caos, comércio, loucura.

Pulei junho, percebeu?

Para mim, é o mês mais lindo do ano porque celebra o amor.

Só por esse fato, merecia destaque no calendário. Os números poderiam vir coloridos, assim como deve ser a esperança.

Não há preto e branco na expectativa de um amor, de um encontro, de uma possibilidade, de uma vontade, de um desejo. Há sempre uma paleta de cores.

Junho é mágico. Figura-se o Cupido que ainda dispara suas flechas na tentativa de juntar os pares, formar casais, unir vidas.

Há uma urgência no ar. É preciso encontrar alguém, mas nem sempre se disponibiliza o tempo e o investimento necessários para fazer a relação durar.

O Cupido se entristece com a velocidade dos relacionamentos, o junta e o separa que acomete as uniões. A fugacidade, a fila que anda na busca do par ideal.

Não há o ideal. Esqueça essa farsa da perfeição.

Amores não são perfeitos e costumam apresentar defeitos com o tempo de uso. Defeitos que, na maioria das vezes, são possíveis de consertar, desde que haja vontade entre os envolvidos.

Em outros casos, faz-se a troca. Começa-se novamente, o ritual já conhecido. Testa-se, experimenta-se, explora-se, saboreia-se, avalia-se, prova-se. Encara-se a possibilidade. Não se desperdiça uma promessa.

Convites para jantar, muitos assuntos, descobertas dos gostos, sorriso bobo no rosto, olhos brilhando feito pedras preciosas.

É do ser humano essa vontade latente de ter alguém para dormir de conchinha, para esquentar os pés em noites frias, para dividir a parte chata e a parte legal da vida, para ter alguém para cutucar, provocar, insinuar vontades e desejos.

Que junho seja uma inspiração, uma pintura, um facilitador, um amolecer de corações que já levaram algumas pancadas.

Que o Cupido tenha mira certeira e que junho extrapole no amor e arraste a beleza dos pares para os demais meses do ano.