Crônica do Dia

kátia-muniz2Abraço

Por: Kátia Muniz

“No abraço a gente entrega o quanto ama”. Fernanda Estellita.

Não é novidade, pelo menos para quem me acompanha, que costumo, muitas vezes, dar a largada para meus textos usando como base frases que me tocam.

A que abre esta coluna, caiu como uma luva para celebrar, no próximo dia 22 de maio, o Dia do Abraço.

Mesmo no Brasil, em que somos mais efusivos ao cumprimentar, dificilmente vamos abraçar alguém no momento da apresentação.

O outro é uma incógnita, um desconhecido. Então, para evitar constrangimentos, esticamos a mão para um cumprimento formal ou, no máximo, aproximamos a face para um beijinho discreto.

Já os abraços ficam reservados para aqueles com quem temos certo grau de intimidade.

Ainda assim, há diferenças neles. Há os abraços rápidos, com um leve encostar do corpo, fugazes, ligeiros, instantâneos, fugidios, apressados. Eles denunciam que ainda falta a entrega dos envolvidos. Avançaram do aperto de mão e do beijinho no rosto, mas negam o repouso e a aproximação mútua que, no gesto em questão se faz necessário.

Homens costumam se abraçar e se estapear ao mesmo tempo. Quando você vir dois homens depositando, com entusiasmo, vários tapas nas costas um do outro, não há outro veredicto: há afeto envolvido. Pai e filho e amigos de longa data são exemplos clássicos da euforia.

Mas lindos mesmo são os abraços que se encaixam, que juntam dois corpos formando um só, que promovem o aconchego, que transborda a segurança.

Abraço que transmite a sensação de paralisar o tempo, de silenciar vozes, de ser o melhor lugar do mundo.

Abraço que faz subir os batimentos cardíacos, que acalma a alma, que faz cafuné no coração, que troca energias e que dá vontade de permanecer ali.

Abraço de gente que fica feliz de ter nos encontrado, que abre os braços e nos recebe sem pressa, com demora e, mesmo sem mencionar nenhuma palavra nos diz: fica aqui.

Abraço sem economia, sem parcimônia, leves, apertados, explosivos, provocativos.

Abraço que se multiplica na hora da despedida, que é a senha para o “não se vá”.

Beijo é ótimo, mas é no abraço que o amor começa.

 

Crônica do Dia: 25 segundos

Young woman shrugging, with comic speech balloon.

Young woman shrugging, with comic speech balloon.

Por: Katia Muniz

Meu filho passou a mão no telefone e ligou para o amigo. A conversa foi rápida. No final, conferiu no painel digital do telefone para saber quanto tempo levou para concluir a proeza. Veio faceiro me contar o resultado:

– Mãe, levamos 25 segundos para combinar o passeio. Por que será que as mulheres falam tanto?

Logo para quem ele veio perguntar! Nem que eu viva duzentos anos, saberei responder a essa pergunta.

Poucos dias atrás, combinei com uma amiga um cineminha. A sessão era à noite, mas, ainda assim, gastamos o dia tentando definir qual dos dois filmes em cartaz iríamos ver e, ao anoitecer, as mensagens no WhatsApp se intensificaram. Lembro bem, a última que passei para ela: “Tô saindo de casa”.

Aleluia!

Antes de começar o filme, ríamos e falávamos sem parar. Durante o filme, fazíamos comentários em sussurros, mas manter a boca fechada era algo dificílimo.

O amigo de longa data veio me visitar. Fazia quatro anos que não nos víamos. Deve ter saído zonzo e querendo me reencontrar somente daqui a duas décadas. Falei o dia todo. Afinal, como é que se atualizam quatro anos de ausência? As histórias eram muitas, as recordações do tempo do colégio eram hilárias e o blá-blá-blá correu solto.

Eu em resumo? Esqueça.

Os mais ligados a mim penam com a minha verborragia incansável.

Meu marido costuma me olhar fixo enquanto eu conto uma história. Posso imaginar o cérebro dele catando as palavras-chaves que possam sintetizar a minha ladainha, as demais ele descarta, considera excessos. Conecta-se somente naquilo que é relevante, o restante, xô, deleta.

Meus e-mails parecem cartas. Meus relatos cotidianos são longos. Minhas mensagens em áudio costumam englobar muitos minutos.

Sou assim. Em 25 segundos não consigo dizer nem meu nome completo.

As chatonildas querem ordem no recinto. Crônica do Dia!

Chatices de mãe                                      Por: Kátia Muniz

MÃE CRÔNICA VALENDOO menininho estava agachado, num canto, com a cara emburrada. Levou as mãos ao rosto e secou umas tímidas lágrimas.

Aproximei-me: “O que houve com você?”

E a resposta veio de bate-pronto: “Ah, tia! A minha mãe é uma chata. Ela nem me deixa jogar no computador”.

Abandonei o piá do mesmo jeito que o encontrei, queria mesmo era encontrar a mãe dele. Precisava dar um abraço nela, ser solidária com a sua dor, dividir algumas aflições. Ela é da mesma espécie que eu, chata como eu, ou como todas nós, que fomos alçadas à maternidade.

Generalizei? Que nada, é a voz do senso comum.

Você aí, filho ou filha, tão incompreendidos nessa vida ingrata, me diga, com toda a sinceridade, quem na sua casa costuma dizer essas frases: “apague a luz, faça a tarefa, escove os dentes, penteie esse cabelo, lave esse tênis imundo, não deixe a roupa espalhada, arrume a cama, leve um agasalho, largue esse celular, junte os brinquedos, não fale alto, não coma de boca cheia, use o guardanapo, comporte-se”.

Posso ouvir, em coro: a mãe!

A mãe que, ao parir também descobre a verdadeira utilidade dos verbos no imperativo. E, pasmem, costuma usá-los o resto de sua vida.

A mãe costuma ser a chata de galochas, a chata de salto quinze, a chata maquiada, a chata descabelada, a chata que trabalha fora, a chata que trabalha dentro de casa, a chata que faz a patrulha.

Com essa chatice toda é ela que, geralmente, põe a casa para funcionar e faz a roda girar.

“Mamãe vai viajar a trabalho”. Os demais integrantes da casa recebem a notícia com uma euforia contida. Ela nem bem bateu a porta direito e todo mundo esquece que existe chuveiro, tratam de aposentar as escovas de dentes e as roupas se acumulam sujas, na área de serviço. Papai se esforça, mas faz um arroz grudento que ninguém aguenta mais. “Pai, quantos dias faltam para a mamãe voltar?”

Eis que a mamãe querida gira a maçaneta anunciando a sua chegada triunfal. Ainda entre abraços e beijos ela já dá início a lista dos famigerados verbos no imperativo.

As chatonildas querem ordem no recinto. Cuidam para que tudo funcione no eixo. Não baixam a guarda, exigem, cobram, entregam-se.

A chatice toda costuma ser mal interpretada. Mas é preciso que ajustemos o foco.

Por incrível que pareça, isso também se chama amor.

Crônica do Dia

Barulhos

Por: Katia Muniz

stock-photo-closeup-sad-young-woman-with-worried-stressed-face-expression-and-brain-melting-into-lines-question-334063310Votação de abertura do processo de impeachment na câmara: raros foram os deputados que usaram o seu momento de voto para o real objetivo: sim ou não. Preferiram extrapolar o tempo permitido a cada um, fazer ensaio de oratória para as próximas eleições, gritar, esbravejar, aparecer e não esqueceram de mandar beijo para a família, esta que, por sinal, também deveria ser lembrada no momento em que alguns desses mesmos deputados cometem suas falcatruas.

Lindomar Garçon, deputado do estado de Rondônia, conseguiu a proeza de aparecer mais que o presidente da mesa, Eduardo Cunha. Garantiu espaço privilegiado e passou o tempo todo flertando com a câmera de televisão. Impossível não enxergá-lo. Tínhamos um olho em quem votava e outro nele. Não arredou o pé. Parecia empalhado. Não havia expressão em seu rosto, até que uma placa pró-impeachment invadiu a frente da câmera e roubou míseros segundos de sua aparição. Aí sim, vimos Lindomar histriônico, fazendo barulho como os outros. Era o circo de horrores!

Marcela Temer: com sua beleza e com sua trança lateral, na posse presidencial em 2011, sua imagem era um bálsamo a tudo que estava ao redor e a tudo que estava por vir. Na época, não foi poupada e, recentemente, uma matéria de revista a trouxe de volta ao centro das atenções. Em pouco tempo, viralizaram os memes nas redes sociais e só se falava dela. Barulho demais para uma Marcela discreta.

Prince: sejamos francos, quase ninguém comentava sobre ele até sua morte ser anunciada no último dia 21/04. Eu fui, nostalgicamente, catapultada para a sala de cinema do antigo Santa Helena, onde assisti, nos anos 80, ao filme “Purple Rain”. O que se viu na sequência segue o ritual de praxe: notícias, notas, homenagens, fotos, músicas e clipes ressuscitados. Barulho. Nesse caso, extremamente devido. Prince era um artista e a arte merece destaque. Deve ser propagada, exaltada, explorada, fomentada, comentada, espalhada, consumida.

Consumir arte eleva, e muito, as nossas chances de melhorarmos como pessoa, de aguçar nosso senso crítico, de sermos formadores de opiniões. De quebra, a arte ainda é responsável por nos levar à fantasia, pois nada é mais prejudicial à saúde do que o excesso de realidade.

Arte é informação, é crescimento, é avanço, é cultura. E cultura serve para muita coisa, inclusive para chegarmos em frente à urna com um embasamento próprio e não nos deixarmos servir de marionetes. Com isso, seríamos poupados de inúmeros fatores que hoje, infelizmente, temos que enfrentar, como por exemplo, a de assistirmos envergonhados os deputados eleitos por nós, transformarem um momento histórico e sério em um celeiro de vaidades.

Ajuda também a não nos incomodarmos tanto com a vida do outro. Deixar que as mulheres belas, recatadas e do lar sigam seu curso. A propósito, o que há de errado com essas três características? Eu respondo: nada.

Que a arte nos invada, nos preencha e nos dê discernimento para lidarmos com os barulhos em excesso.

 

Crônica do Dia

A teoria de tudo

unnamedPor: Katia Muniz

Lembro que, na época, por falta de tempo, eu tive que fazer uma escolha: assistiria ao filme Boyhood ou ao filme A teoria de tudo. Optei pelo primeiro.

Rendeu-me uma crônica e uma torcida fervorosa para que o filme ganhasse o Oscar/2015. Boyhood perdeu para o pulsante Birdman.

Confesso que, de lá pra cá, me mantive inquieta, em dívida comigo mesma. A teoria de tudo me agulhava o pensamento. Precisava assistir a ele.

De férias, me rendi. Afundei-me no sofá de casa e dei graças a Deus de não ter visto o longa no cinema. Com a fama de chorona, que me acompanha, a turma da limpeza teria o maior trabalho de secar todas as lágrimas que eu derrubaria no escurinho do recinto.

O filme, baseado no livro de mesmo título, conta a história do físico Stephen Hawking, brilhantemente interpretado por Eddie Redmayne, que faturou o Oscar de melhor ator, com o devido mérito.

Sabemos que Stephen Hawking é um fenômeno, mas o que me fez erguer o músculo da testa, o tempo todo, foi Jane Hawking, esposa do físico.

Ela não descobriu a teoria de nada, mantinha-se nos bastidores, reservada, com voz pausada. Ainda assim, era um furacão. Impossível não notá-la. Sua força se externava, não se continha dentro dela, pedia passagem. Dona de uma personalidade forte, aguentou com garra e perseverança os 25 anos em que esteve casada com um homem que perdeu todos os movimentos do corpo e, tempos depois, a fala.

Extasiada com o filme, comprei o livro. Devorei as 450 páginas em poucos dias. Enquanto o longa condensa, modifica a história e apela para o romantismo, o livro escancara em detalhes minuciosos, e sem nenhuma pressa, todo o processo que envolveu a chegada da doença, sua evolução, os cuidados necessários, a rotina da família, os gritos internos de Jane. Ela de novo. Ainda é Jane que me fascina, que me entorpece, que me tira do chão.

Mulheres fortes sempre me arrebataram. São aquelas que não vieram a passeio, que não aceitam tudo que a vida lhes oferece, que questionam, que encaram os enfrentamentos de cabeça erguida, que agem ao invés de se lamentar, que carregam uma beleza que nada condiz com capa de revistas, que são impactantes, que dizem tudo sem necessariamente pronunciar alguma palavra, que são vulcânicas.

Ele fez história e deixará, de maneira indelével, sua marca para a humanidade.

Mas eu virei fã foi dela. Para mim, a maior descoberta de Stephen Hawking atende pelo nome de Jane.

 

Crônica do Dia- A Ignorância nossa de cada dia

kátia-muniz2Por: Kátia Muniz

Diante da epidemia de dengue que assola esta cidade, é fato que o poder público vem se esforçando no quesito limpeza. Há trabalhadores nas ruas cortando o mato dos canteiros, das praças e coletando o lixo. A cidade vem se propondo a colocar ordem na desordem que se acumulou durante anos e anos.

Menção honrosa às pessoas que, no trabalho voluntário, entregam seu tempo, sua dedicação e, principalmente, o amor ao próximo. Pensam na coletividade e se empenham em deixar um mundo melhor do que aquele que encontraram. São anjos disfarçados de pessoas comuns, à paisana, que abrem mão de parte da vida particular em prol do outro. Mereciam todos estátuas em praças públicas. Mas há outras características que os definem: não gostam de holofotes e não fazem muito barulho das suas realizações. Desconheço forma mais bela de humanitarismo.

Há mutirões de limpeza organizados pelos próprios moradores de bairros, há gente faxinando o quintal, há muita gente fazendo a sua parte.

Mas, infelizmente, há também os que não estão nem aí com os dados alarmantes que são divulgados, semanalmente, no boletim emitido pela Secretaria de Saúde.

Gente que faz pouco caso, que segue alheio às inúmeras informações divulgadas, incansavelmente, pela mídia impressa e falada, que permanece inerte ao combate do mosquito que faz ronda e ceifa vidas.

São pessoas que não se abalam, que continuam a propagar a sua pobreza existencial com atitudes prejudiciais a si próprio, aos seus familiares e à comunidade.

Não limpam o seu metro quadrado, jogam entulhos em locais públicos, negam a entrada dos vigilantes de saúde e estão sempre a postos para erguer o dedo e apontar as falhas alheias, tão facilmente detectadas no outro e tão camufladas em si próprio.

A ignorância tem a cruel capacidade de nos vendar os olhos.

Ignorância não no sentido de não ter oportunidade ou acesso às informações. A pior delas: aquela em que a informação chega, mas é descartada, deixada de lado, colocada em escanteio.  A falta de urbanidade costuma ganhar solo fértil quando é adubada pela ignorância. E esta, por sua vez, vai devastando aqueles que não se permitem crescer como pessoa. Que seguem a vida de olho no próprio umbigo, encarando-se no espelho que costuma lhes devolver uma visão distorcida de sua própria imagem.

Saudosismo

1997 - Get Dancing - frontPor: Katia Muniz

O programa “The Voice Kids”, que se encerrou no domingo de Páscoa, alavancou a audiência da emissora e nos trouxe um certo alívio em tempos tão difíceis. Não só pelo momento político conturbado em que vivemos, mas por nos mostrar a riqueza de talentos que se encontram espalhados por esse Brasil afora, além de nos dar a esperança de poder, enfim, ouvir música de qualidade.

Faz tempo que a produção musical, por essas paragens, vem em declínio. Não dá para generalizar, mas anda cada vez mais difícil separar o trigo do joio.

De gente que não consegue alcançar notas, de desafinação, de letras pobres em conteúdo, refrões pegajosos feitos para durar um verão e de pseudocantores que nascem do dia para a noite, já estamos cheios.

Na falta de algo que nos faça pulsar é comum encontrarmos algum alento em programas do passado. O canal pago “Viva” veio para preencher esse vazio.

É uma delícia ver “O Cassino do Chacrinha”, “O Globo de Ouro” e as novelas que marcaram uma época.

Repare que basta mencionar os anos 70 e 80 para que haja um burburinho.

Temos saudades de quê?

Do globo brilhante pendurado no teto, das luzes coloridas no chão, das discotecas, dos vinis, dos shows sem nenhum glamour.

Dos bailinhos, das matinês dançantes, das festinhas americanas, dos clubes, dos embalos de sábado à noite.

Temos saudades do Raul, Cazuza, Cássia Eller, Cindy Lauper, Madonna, Duran Duran, Kid Abelha, Metrô, Legião Urbana, ABBA, RPM, Biquíni Cavadão, A-Ha, Lionel Ritchie, Tina Tuner.

Sentimos falta da ingenuidade que se perdeu, da nossa juventude que ficou para trás, da vontade absurda de estar lá, naquela época fantástica.

Geralmente, não desperdiçamos as chances que nos são apresentadas de poder reviver aqueles momentos. Sentimos falta de alguma identidade, nessa onda fugaz e descartável que assola os dias atuais.

Nos anos 90, os “Mamonas Assassinas” surgiram com músicas que, para alguns, foi o primeiro sinal de uma decadência musical. Ainda assim, era possível dizer o que se pensava. Dinho, o vocalista, cantava “Robocop Gay” com ares de menino arteiro. Ninguém arrepiava os cabelos. Papais, mamães e as crianças eram fascinados pela banda. Não havia patrulha, não havia o politicamente correto. Hoje, possivelmente, o vocalista não abriria a boca. Estaria engessado no seu processo de criação e, muito provavelmente, o grupo todo estivesse atolado em processos.

Então, a gente tende a correr para o que nos promove algum revival, pois, no andar da carruagem seguimos de modo intranquilo e desfavorável.

Crônica do Dia: O que me cabe

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

Assoprei as velinhas com um fôlego de menina. Se você está aí curioso para saber quantas delas havia em cima do bolo, eu digo: quarenta e sete.

Puxei o ar, segurei e esvaziei os pulmões de uma só vez. Ato capaz de fazer corar até o lobo da história “Os Três Porquinhos”.

Em um passado não muito distante, fazer aniversário, para mim, era um martírio. Sentia o peso de qualquer idade inaugurada, em número duplicado. Eu não tinha 20, tinha 40. Eu não tinha 35, tinha 70.

Hoje, celebro a data de maneira tranquila, serena e com uma felicidade que me revigora. A responsável por essa mudança de comportamento? Vejam só que irônico: a idade.

Acumular idade é um presente.

A bolsa de marca famosa se vai, o sapato torna-se démodé, a blusa fica ultrapassada, a calça não serve mais, as bijuterias resistiram ao modismo de um único verão. Mas as idades vão ficando, se agrupando, se juntando, se apertando dentro da gente. Eu ainda tenho 5, 10, 15, 20, 30, 40 e 47 anos.

Tenho a somatória das escolhas que fiz, tenho família formada, tenho amigos de longa data e outros que estão chegando, tenho as músicas que me marcaram, tenho os livros que recentemente descobri, tenho os filmes a que assisti.

Tenho momentos, memórias, lembranças, viagens, passeios.

Tenho sonhos, metas, arrependimentos, desilusões, fantasias, desejos, vontades, delírios.

Ao soprar velinhas, não zero o passado. Carrego tudo comigo. Não sou doida de desprezar o maior responsável por me tornar a pessoa que sou hoje.

Sigo escrevendo a minha história e sei que a linha estendida à frente é mais curta do que toda a que eu já percorri.

Ciente disso, não me prendo mais a bobagens, ao supérfluo, ao desnecessário. Filtrar também é maturidade.

Ando leve. Carrego comigo somente o que me cabe.

 

Crônica do Dia: Mulheres

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

As mulheres são profissionais exemplares. São mães dedicadas. São esposas maravilhosas. Uma salva de palmas! Clap, clap, clap, clap.

Grrrrrrrrrrrr. Todo ano a mesma ladainha no Dia Internacional da Mulher. Mas tenho que admitir que é mesmo difícil fugir do senso comum, quando a realidade de milhares de mulheres cruzam a mesma rota.

Lá vou eu descrever meio período de trabalho profissional de uma delas.

Às 13h30, com a temperatura na casa dos 38 graus, ela deixa as crianças vestidas de maneira bem fresquinha na escola e, zupt, parte para o trabalho.

b2ap3_thumbnail_malabaresBate o cartão e inicia a rotina. De repente soa, imaginariamente, em seu ouvido, a voz do marido: “O que temos para o jantar?” Pronto, acendeu a luz de alerta. Liga para a Jurema, a empregada. O telefone toca, toca, toca e nada. Jurema está no seu período de descanso, naquela hora estipulada pela nova lei. Então, ela tenta, dali mesmo do escritório, fazer um tour imaginário pela geladeira. Precisa descobrir se há carne, tomates, cebolas, ovos. Em vão. Pega um pedaço de papel e, rapidamente, bola uma lista de supermercado. Ok.

Alguém a avisa que o tempo mudou bruscamente. Olhando pela janela, a situação é assustadora. Venta muito, nuvens escuras se formam anunciando uma tempestade e a temperatura caiu drasticamente.

O que uma mãe pensa nessas horas? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três: nas crianças que devem estar congeladas de frio com aquelas blusinhas de alça. Lógico que não é para tanto, mas mãe sempre tem uma forma exagerada de ver as coisas.

Impossibilitada de ir levar um casaquinho para a prole, ela funde o pensamento tentando encontrar alguém para executar a tarefa. Meia hora depois tudo resolvido.

Enfia a cara no trabalho. Chega uma mensagem: Reunião às 17h30.

Esse é o horário de buscar os filhos na escola. Então, ela esbraveja com seus próprios botões para depois ser tomada por uma vontade doida de bater no chefe. A fúria dura meros segundos, pois a questão relevante é: Quem vai buscar as crianças? Lá se vão alguns minutos na tarefa de encontrar uma boa alma para resolver a pendência. Ok.

Segue para a reunião com as mãos tomadas por pastas contendo gráficos e relatórios. Atravessa corredores com ar sublime e de mulher bem resolvida. Não se deixe enganar. Por dentro, geralmente, costuma bater um coração apertado e cheio de culpa.

Na reunião, tenta se concentrar dividindo espaço com a lista de supermercado, com a dúvida se deu tudo certo na hora de pegar as crianças, com o cardápio para o jantar.

Se você não se identificou com nenhum parágrafo, procure, vasculhe, remexa e, com certeza vai encontrar semelhanças em alguma outra mulher. Tem aos montes por aí.

Para elas, uma salva de palmas: Clap, clap, clap, clap.

Crônica do Dia: A Fortaleza

kátia-muniz2Por: Katia Muniz

Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres, Ilha do Mel, Paraná, início de fevereiro de 2016.

Foto: Sereia das Encantadas

Foto: Sereia das Encantadas

Entrei na parte onde era a antiga prisão e dei de cara com a exposição “Lagamar”, de Orlando Azevedo. São fotos que retratam o estuário do Lagamar, complexo biológico que abrange Guaraqueçaba, no Paraná, até Iguape e Jureia, em São Paulo.

Todas as entradas que levam à prisão estavam abertas, mas a exposição te prende, te arrasta para dentro, te suga. Gastei o tempo, que nas férias costuma sobrar, observando atentamente cada imagem, cada detalhe, e me deixei levar pela delicadeza, sensibilidade e beleza retratadas.

De repente, ouço uma música. É ela que me tira da exposição e me leva até a casa principal. Lá encontro um senhor tocando flauta. Em outros dois pontos distintos, dois homens fazem um desenho do local.

Adentrei o recinto e SUR-PRE-SA! Meus olhos enxergaram uma biblioteca com um acervo bem diversificado: obras de Pablo Neruda, Millôr Fernandes, Drummond, Fernando Pessoa e vários títulos destinados ao público infantil, que estão à disposição dos moradores da ilha e dos visitantes, desde que se façam valer três verbos: emprestar, ler e devolver.

Nas paredes, mais quadros. São fotos, em preto e branco, que retratam a vida dos pescadores da Ilha do Mel. A autoria é de Leonardo Regnier.

O altar datado do século XVIII, que pertencia à Capela do Forte, agora, preenche o espaço de uma outra sala.

Quem visita a casa principal é recebido pelo Fábio Machado. Com jeito tranquilo e voz pausada, consegue desacelerar os turistas mais afoitos. Orienta, explica, conversa, explana sobre os momentos históricos vividos no local, oferece um folheto contendo o mapa da ilha e tem o cuidado de não deixar ninguém sumir do seu raio de visão sem assinar a folha de registro de visitantes. Faz, com louvor, a lição primordial de quem lida com o público: receber e atender bem.

Eu estava lá, fingindo ler um livro, quando, na realidade, estava mesmo era montando essa crônica, na cabeça, e pude presenciar o Fábio em ação, primeiro atendendo um grupo vindo de Porto Alegre e, logo na sequência, alemães e argentinos.

Entrega a cada um o seu melhor e faz tudo com muito amor e dedicação.

Se eu já arrastava um bonde por esse pedaço da ilha, agora me rendi de vez. Saí extasiada em ver que as paredes e o local, tão ricos em história, ganharam também o colorido das artes e da cultura. Foi um mergulho que jamais vou esquecer.